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Transversais III

1- Falam as duas ciganas que haviam aparecido com os vizinhos
 

Em Morte e Vida Severina, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto traça a trajetória do retirante nordestino em sua via-sacra através do sertão até chegar a Recife.
O poema tem como subtítulo auto de natal pernambucano, pois foi concebido como uma composição dramática que ligasse o drama/desesperança do retirante à esperança que se renova no Natal, ou seja: o nascimento, a vida, a renovação do sentido de viver.
Transcrevemos abaixo o episódio em que, junto com os vizinhos que levam presentes, surgem as ciganas para prever o futuro do menino que em extrema pobreza acabara de nascer.


(Primeira cigana)
_ Atenção peço, senhores. Morte
para esta breve leitura: somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas (capa)
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, como aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamus,
e a correr o ensinarão
os anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
Na ilha do Maruim,
Vestido negro de lama,
Voltar de pescar siris;
E vejo-o, ainda maior,
Pelo imenso lamarão
Fazendo dos dedos iscas
Para pescar camarão.

(Segunda cigana)
_ Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é de lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui, vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibarbe
para um mocambo melhor
nas margens do Beberibe.

Leia ainda:

2. A Cigana 

 

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