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Transversais II

1. Estão Comendo Demais

Uma coisa me impressiona demais em televisão. Não é o que os senhores estão pensando: a violência dos enlatados. A esses, nem-te-ligo, ou antes, eu desligo. Se o bandido joga outro no tanque de cerveja e lhe afunda a cabeça, toda vez que ele tenta vir à tona, antes mesmo que ele faça isso, manejo o botão das cassações, e regresso à vida suportável.
 
O que me impressiona – digo mais: o que me atrai, me perturba, me fascina, me abate, me assusta, me obriga a ver de novo, são os comerciais de bolos, chocolates, sorvetes, balas, cremes, pudins, sucos, interpretados por crianças.
 
Como as crianças comem! e não param de comer e estão comendo com aquela cara de prazer oficial que é próprio dos comerciais. Primeiro, comem com os olhos arregalados para a lata, o pacote, a garrafa, o prato. Comem com o sorriso, antes de comerem com a boca. E depois comem com o corpo todo, sensorialmente falando. Carinhas bem lambuzadas de doces para mostrar que o doce é legal e que convém degustá--lo às toneladas, de olho no que resta na mesa, para que o coleguinha não avance nele antes que se consiga uma vaga na boca para abocanhá-lo (ao que resta, não ao coleguinha).
 
A sobremesa foi preparada pela menininha, que tem que ir lá fora e pede ao irmãozinho que não bula naquela delícia. Ao voltar, cadê a sobremesa? “Eu comi.” Toda a garotada que vê televisão de 8 hs às 8 hs do dia seguinte (porque esse negócio é incontrolável) recebe, deste modo, amável sugestão visual para avançar na sobremesa alheia, e ai de quem vai lá fora. Garotos e garotas, se vocês forem lá fora, já sabem: terão que esperar outro comercial, ainda não bolado, que permita comer lá fora o que não puderam comer na copa.
 
Tanto de-comer gostoso, colorido, apelativo, talvez traga problemas de obesidade precoce aos miúdos, é possível que essa chocolatada, essa orgia de açúcar lhes arruíne a saúde além das boas maneiras, mas há o lado positivo, e não falo dos lucros dos fabricantes. O lado positivo é mostrar que o Brasil come bem, obrigado; que as crianças estão aí, publicamente, dando lição de fartura na despensa e na mesa. Se começam a papar assim na idade dos descobrimentos, que não farão quando encorparem, já donos da vida? Aí ninguém mais poderá com elas e eles. O Brasil será um banquete, não feito por nós, mas para nós. O povo mais bem servido no mundo em gulodices e em capacidade de fruí-las.
 
Fome, é? Quem foi que falou em fome no país? Em doenças de subnutrição, etc? Os comerciais  demonstram o contrário. E quem por acaso não tiver condições de saborear à farta aquele mundo de gostosuras oferecidas aos meninos-atores da televisão, pode muito bem fartar-se com as imagens correspondentes, com os entupimentos de boca-cheia feliz, as babas de plenitude, os miniorgasmos palatais que eles proporcionam a toda a população. Imagem também se come, se bebe, se fuma, se transa.
 
Ou não? Dizem que é fácil controlar em casa de mini-orçamento o furor comestivo dos garotos que teimam em repetir com realismo os gestos rituais dos pequenos anunciadores. Desligar o aparelho não resolve e até agrava a aflição dos meninos, que ficarão aguados. Não sei que sugestão dar, nesse caso. Jogar a tevê pela janela, pode matar alguém lá embaixo e haverá um motim da nova geração. Atirar a nova geração pela janela, alternativa obviamente desaconselhável. Talvez, quem sabe? um abaixo-assinado às produtoras de comestíveis, pedindo-lhes que não anunciem tanto, de maneira tão direta e envolvente, seus adoráveis e irresistíveis produtos. Ou senão: apelar para os pais de todos os menininhos anunciantes, pedindo-lhes que retirem seus filhotes do vídeo, deixem as guloseimas serem apregoadas só por adultos de mais de 60 anos, que nenhum garoto digno deste nome faz questão de ver, muito menos de imitar.
 
(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE  Jornal O Estado de Minas de 01/10/77)
 

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