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Transversais III

2. A Cigana
 
Seu vestido é de muitos panos, vermelhos, verdes... lenço de seda ocultando os negros cabelos. Grandes argolas penduradas nas orelhas, e nos pulsos tilintam alegres pulseiras douradas.
A cigana parou ao pé da escada, mandou que chamassem a dona da casa. A menina chega primeira, fica olhando atrás da grade da varanda, partida entre o medo e o deslumbre. De onde teria vindo aquela mulher espantosa, de pele morena e olhos enormes tão negros?
Mamãe chega desconfiada, enxuga as mãos no avental, interpela ríspida:
_ A senhora deseja o quê?
A mulher se abre num sorriso de dentes de ouro:
_ Mas olhem e vejam como a dona é bonita! Tão nova...
E vai subindo as escadas. A menina assiste, imóvel, até se esquece de respirar. Uma mulher tão bonita dizendo que mamãe é bonita.
_ Não tenha medo, senhora, deixa-me ler seu futuro, belas coisas hei de encontrar.
Quem resiste ao fascínio da bela cigana, ao sortilégio da noite escura do seu olhar? Mamãe estende a mão. A cigana:
_ A senhora tem um marido apaixonado, lindos filhos, boas coisas estou lendo nas linhas de sua mão. Mas sua filha, senhora... essa há de crescer olhando as estrelas. Vejo um caminho muito longo, não há final...
Mamãe retira bruscamente sua mão, a cigana apazigua;
_ Ora, vamos, não se aflija, não há nenhuma desgraça, nenhum mal. Não existe linha amarga em seu destino. Há de ser feliz...

Conservo bem nítida a figura da cigana, e o seu jeito cigano de cobrar caro pelas suas admiráveis profecias: um frango, dois frangos, e tantos mil-réis, e um copo de leite... e esse cordão de ouro também a senhora podia me dar? Mamãe levou a mão ao pescoço, protegendo o cordão de ouro, presente de meu pai. Quanto ao resto, deu à cigana tudo que ela queria, e mais dinheiro e até um corte de pano com flores azuis. Não prestava aborrecer as ciganas: quem a livraria depois de um quebranto, mau-olhado, uma possível maldição?
No curral, os ciganos tentavam barganhar cavalos com papai. Mais cético em relação a possíveis maldições, ele não fechou negócio de jeito nenhum, não se deixou envolver pela lábia insinuante do cigano que lhe mostrava todas as excelências de um cavalo castanho, lustroso demais. Mas comprou tachos de cobre reluzente, panelas, grandes conchas e até uma jarra de metal.

Há de ser feliz. Era de mim que a cigana falava? Jamais saberei. Pois quando pergunto a mamãe, ela diz que não sabe, se esqueceu, já faz tempo demais.
E não sei por que haveria de me preocupar com essa bobagem. Como poderia uma esquiva gitana prever meu futuro ou o de outra pessoa qualquer?

Leia ainda:

1- FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS

 
 

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