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WALDEN CARVALHO

 
Muitas vezes, Walden Carvalho dirigiu seu carro pelas frias manhãs do Sul de Minas. Céu cinza, pista úmida, árvores encarangadas – e muita neblina. No acostamento, encolhidas em seus parcos agasalhos, pessoas estáticas. Friorentas, foscas figuras nas névoas, apenas estavam ali e esperavam.
Inspirado nelas, Walden escreveu o poema

Os que esperam

          Há os que esperam. São os que se deixam ficar imóveis à margem. Ali ficam. Os olhos são opacos, mas é possível, com muito cuidado, descobrir nos seus movimentos lentos e mínimos, cenas rápidas de amor e saudade.
          Os que esperam observam, num quedar sem músculos, a nuvem que forma formas de sonhos e objetos de seres e nadas. As nuvens são como grandes deuses de fumaça. Têm seus gostares.
          Os que esperam abraçam-se como se fossem duplos em apenas um corpo. Estão sempre abraçados a si mesmos. Podem fazer isto porque esperam. Sentem-se frágeis e fortes ao mesmo tempo, uma coisa depois outra. São os duplos.
          Os que esperam ouvem o som do coração e se encantam, pois apesar de tudo, ele se move. Ele tem um movimento que não é bem uma música, é mais uma dança de balanço.
          Os que esperam sentem o vento que passa leve e levanta o fiapo de algodão. Ele desenha piruetas errantes antes de ficar preso ao arbusto. Muito curta a vida de um fiapo de algodão. Quanto tempo fica preso um fiapo de algodão no arbusto seco? Talvez muito, como o tempo dos homens. Não, isto é mais do que é possível pensar. A vida do algodão no arbusto é só um tempo.
          Os que esperam olham os filhos, além deles. Os seus filhos já chegam com história. Essa história forma um outro filho sem face, grudado aos seus pés e que nunca os abandona. Dão-lhes o nome de sombra.
          Os que esperam não têm pressa. São parte da paisagem, que não se conforma por não ter um sentido sem eles, os que esperam. Tudo é muito fugaz. A própria paisagem é uma sucessão de leves arranjos que nunca mais se repetem.
          Os que esperam levantam os olhos para o céu mas não perguntam quando.
          Os que esperam olham o chão e aceitam o ponto certo onde ficar.
          Os que esperam rebuscam saudades, aconchegados ao silêncio. Têm saudades de coisas que sequer conhecem mas que possuem o dom de provocar um arrepio fundo que encrespa a pele.
          Os que esperam nunca estão sós. Há sempre, grudando em seu corpo, um silêncio de quem aceita a espera, como aceita o amor que resiste a todo o tempo e vai muito além das suas melhores lembranças.
          Quem espera nunca está só, faz parte da solidão de quem passa.

><><

Os que passam

São os que passam que rompem a paisagem,
como seres enfurecidos que procuram outro ponto
no conjunto das belezas adormecidas
que formam os contornos de cada instante.

Os que passam avançam sobre neblinas,
seres de névoa que carregam sonhos e promessas,
escondem o sol, mostram fantasmas brancos esparramados,
e brincam de esconder as árvores, os morros, o caminho,
e que chamam. Principalmente, chamam para dentro do seu mundo.

Os que passam despertam dos sonhos os pássaros,
senhores do vento e do traço fino,
capazes de desenhar no nada arabescos de puro prazer,
como uma dança obediente apenas à musica das coisas
que compõem a paisagem silenciosa,
e pela qual só os mansos são capazes de chorar,
de puro amor aconchegado.

Os que passam não conhecem o seu lugar na paisagem
e por isso se inquietam com a paz de tudo que está em seu ponto certo,
como se o silêncio e o gesto delicado da brisa que sopra nos morros
balançando as folhas
não fosse apenas a mesma vida que também é sua.

Os que passam são apenas circunstâncias que procuram
e não são mais do que uma leve onda
na vida daqueles que, sem pressa, com a certeza do encontro,
se abraçam com o soprar do tempo
e esperam.

><><

Walden Carvalho - Graduado em História, doutorado em Política e Estratégia. Professor de pós-graduação em cursos de Estratégia Organizacional. Crítico literário, poeta, escritor, autor do livro de contos " Cordiais Saudações".
E-mail: caminhoeconomico@bhgeraes.com.br


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