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Mrs. Dalloway - Virgínia Woolf
 
Decidindo que iria ela mesma comprar as flores, Clarissa Dalloway nos leva consigo pelas ruas de Londres, e é com seus olhos que vemos os gramados de Saint James Park, as janelas acortinadas de um pub de Jeremy Street, as fachadas das casas de Bond Street, carros e carruagens - até que de súbito nos surgem as vitrines floridas do Burlington Gardens. Entramos, e junto com ela submergimos numa orgia de aromas e cores: rosas, íris, lilases, cravos, ervilhas-de-cheiro, delfínios e açucenas.
De novo na rua. As atenções se voltam para um carro que passa. Um rosto é fugazmente vislumbrado: da rainha, talvez, ou do Príncipe de Gales. Um frêmito percorre a multidão, ao sentir-se quase tocada pela nobreza, assim ocultada no seu carro. Que atravessou Saint James Street e virou no Mall, mas a multidão que se aglutinara não viu quando ele atravessou os portões do palácio de Buckinghan. Justo nesse momento, todos olhavam para cima.
Pois um avião corta os ares. Riscando letras de fumaça no céu, abre a possibilidade de se mostrar um panorama mais amplo de Londres, interligando, do alto desse vôo, pessoas e eventos nos pontos mais espalhados da cidade.
O avião desenha letras. Com essas linhas a autora une a personagem principal a diversas outras personagens, e, principalmente, estabelece um contato maior com o leitor. Sobretudo nos liga a Septimus Warren Smith, "cerca de trinta anos, pálido" etc. etc. que se encontra do outro lado, no Regents Park, com Lucrezia, sua mulher. Pois o médico recomendara a Lucrezia que levasse o marido a passear. Talvez assim ele se interessasse de novo pela vida e cessassem suas alucinações. Septimus sente-se alvo de todo o horror do mundo e de todo o absurdo da vida. É uma personagem que se opõe a Clarissa Dalloway, a qual tenta decididamente fincar-se no solo seguro do cotidiano, buscando o "real" nos seus aspectos mais rotineiros e normais: a gentileza das criadas, os vasos para as flores, o vestido para a festa que dará à noite.
Os caminhos de Septimus jamais se cruzarão com os de Mrs. Dalloway mas, através dele, a autora nos faz pagar pela grama do parque, pelas vitrines floridas, pelas festas (a do palácio, a de Clarissa), e pelo deslumbramento perante a realeza que desfila semi-oculta sobre as rodas de seu carro. Pois Septimus carrega definitivamente sua carga de sofrimento e morte.
Septimus é uma chaga aberta, expondo tudo aquilo que em Clarissa Dalloway é sombra e disfarce: as emoções, as rugas, a evocação da juventude.
Clarissa como que vai fotografando cada momento, cada evento do que se passa no mundo exterior - e, a cada um desses flashes, reflete algo de si mesma, de seu mundo interior: não fora convidada para almoçar com Lady Brutton (o convite era apenas para Richard Dalloway, seu marido). Essa dorida frustração. E, aqui e ali, uma nesga do passado, fotos também, algumas mais vivas, outras desbotadas.
O tempo é também uma "personagem" de Virginia Woolf. Seu caráter volátil, sua abstratividade são incorporados a eventos, lugares, pessoas. O tempo se marca menos pelo relógio - as batidas do Big Ben - e mais por aquilo que mostra a superfície inexorável do espelho. Simplesmente que: tudo passa. Sabemos que o tempo passou, que o que foi não é mais. E o sabemos através do rosto de Mrs. Dalloway frente ao espelho, aos cabelos encanecidos de Peter Walsh (que chegara sem avisar). Peter Walsh que traz consigo todo um passado justo naquele dia em que Clarissa prepara uma festa e não quer se ater ao passado.
Num romance em que se prenuncia a doença, a velhice e a idéia de que alguém vai morrer, não é a vida, mas a festa que se contrapõe à idéia da morte. A festa, os detalhes da festa, o vestido - elementos aos quais se agarra Clarissa, dessa maneira agarrando-se a uma ilusória concretude e tentando ignorar as marcas de nossa passagem, da vida que se escorre: os dias, as horas, tudo o que foi e que está para sempre acabado
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