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Blackout
Livro Blackout

Onze contos, onze personagens que se movem entre tantas outras, até que todos os gestos são detidos no epicentro do blecaute. Assim termina bruscamente a primeira parte. A segunda parte se abre em espanto e deslumbre ao acenderem-se as luzes. O que foi que mudou?
Separadas no espaço da mesma cidade, fios invisíveis ligam essas pessoas, não obstante a diferença de idade, sexo, condição social.  Um médico perdido num casamento vazio; uma rica dama cega, uma empregada que deseja ser patroa; a menina pobre na promiscuidade do barraco, o garoto favelado querendo ser dono do mundo, o garoto rico buscando a morte; a mulher que foge do amor, a que busca ter um filho, a que luta para não perder o filho; um casamento falido, um casal de adolescentes apaixonados; o intelectual que desistiu de tudo, o escritor que batalha com as palavras.
Luta, desalento, desespero, esperança, solidão, vida, amor e morte. O eterno drama de ser humano – esse é o universo de Blackout: onze contos com personagens-títulos, entretecendo uma teia entre si e entre outros personagens, o que confere à obra a estrutura de contos-romance. 

Fragmentos

Ramon
Deu uma longa tragada no cigarro, sentiu aumentar-lhe o amargor na boca. Droga! Voltou-se para as últimas linhas que escrevera. Era agora. Estava prestes a dar um destino final à sua história. Tinha tudo na cabeça, era só conferir-lhe expressão, dar uma forma àquilo que ainda era matéria abstrata em sua mente. Abstrata? Para ele, nada havia de mais concreto – mais palpável talvez que a própria vida. Embora, às vezes, para seu tormento, esbarrasse na imaterialidade das palavras – substância volátil se dissipando entre seus dedos, como nuvens que alguém tenta tocar ao subir a montanha.

Carolina
Jean... A voz dele lhe doía fundo, possuía um timbre que jamais ouvira antes. Força e doçura, uma tonalidade pessoal inconfundível, e mais alguma coisa que não sabia explicar. Era uma verdade absurda e terrível: estava apaixonada. Tão dorida e fundamente apaixonada que somente uma certeza a redimia: vai passar. Tudo passa, isso também passaria. Dissociava-o tanto da concretude que mesmo a sua presença física naquele momento permanecia circunscrita ao território do devaneio.

Felipe
Não amava a mulher – mas não tinha coragem de confessar. Ele se retraiu no recato e ela no ressentimento de saber-se rejeitada. Não falaram sobre isso, tacitamente se afastaram – afastaram seus corpos sem sequer uma palavra. Gostaria de dizer-lhe... Dizer-lhe o quê? Ela e sua ternura contida, seu amor mal empregado. Tinha que inventar coragem e mirá-la de frente, olhos nos olhos:Tanto amor, tanto afeto perdido, suspenso no espaço. Procura um homem que te receba com amor igual, que tenha igual afeto para compartilhar...

Marluce
Por que não podia ter um filho? Os seus sonhos eram tão simples – por que não se realizavam? Quanto mais se debatia, menos grávida ficava – era mais ou menos isso o que lhe afirmava com ironia seu médico. Tinha raiva do médico: O problema não é dele, não é ele que deseja ter um filho.
Ao fim de longo tempo, quando já vencida desistia, Deus concedeu-lhe a gravidez pela qual tanto ansiava. Outra vez Deus... A essas alturas, Marluce se tornara muito religiosa, vivia na igreja, sempre pedindo isso mais aquilo, sempre esperando que forças divinas resolvessem os grandes e pequenos percalços de sua vida.

Marlo
Olhou para o Marlo – Esse aí, mais dia menos dia, está que nem o Paulo: um bagaço. Repensou: ser dono de bar não era uma profissão feliz.
_ E o Donato? – o bêbado perguntou.
Parou com o pano na mão:
_ Ué... não tá sabendo?
_ Diz logo se tem alguma coisa pra eu saber.
_ Pois então: ele está com a Marluce no hospital, é hoje que vai nascer o menino.
_ Caramba!
Aquela sim, era uma baita notícia...
O desgraçado do Donato. É isso que eu falo, mais um irresponsável botando filho no mundo – mais dois, quero dizer, pois é a mulher dele que vai dar à luz.

Nino
Ele queria pedir desculpas, pedir perdão, não sabia bem por quê. Ainda achava uma pena que não tivesse dado certo. Se tivesse realmente morrido, tinha certeza: em algum momento a mágoa de Zelda abrandaria, ia ficar apenas como um jardim assim meio devastado pela chuva: folhas caídas, ramos quebrados. Mas o sol e o vento e o tempo acabariam por consertar tudo e ela poderia ter paz e ser feliz nos braços do homem que amava. Era boa gente o Nelson, merecia Zelda – tomava conta dela, dava segurança. Os dois só não se casavam por causa dele, desse menino... Zelda não tinha coragem de ser feliz enquanto seu filho também não o fosse – desejava, portanto, o impossível. Era patético como colocava todas as suas esperanças nas mãos do idiota do psicanalista.

Dolores
Sem sequer um vacilo apostou direto um terno de dezenas na borboleta: 13, 14, 15. Feito um lampejo, por sua mente dardejou a luz esverdeada dos olhos do tigre. Afastou a imagem inoportuna e concentrou-se nas asas das borboletas, muitas e belas, vermelhas, cintilando à sua frente. Recontou o dinheiro, pagou o jogo, e dali mesmo tomou seu ônibus, já atrasada pra pegar serviço. Gostava de chegar mais cedo, antes que dona Isadora se vestisse. Por mais que rezingasse, a velha senhora precisava dela – e Dolores se sentia mais ou menos assim feito um anjo-da-guarda.

Sentada ali, diante da televisão, não era nisso que pensava agora. Olhava meio vesga as figuras na telinha, as personagens da novela. Uma casa podre de chique, cheia de trinques, a maior boniteza. O que mais admirava é que aquelas madames passassem o dia inteiro tão bem vestidas e maquiadas dentro de casa. Gente rica é outra coisa. Eu também vou ser que nem essa aí, essa ricaça. Quero ser perua das mais emperuadas, com direito a tudo. Vou ter que lutar um tanto, mas chego lá.

Alberto Charles
Uma Honda! Passar zunindo nas ruas descalças, espantando o povo, atropelando cachorros. Até sentia na garganta o estalo da glória. Atravessar a cidade, subir a Avenida, ir para o Mirante e então – subir no parapeito, abrir os braços e gritar: Eu sou Alberto Charles, eu sou o rei do mundo! Melhor do que qualquer baseado, melhor do que cheirar cola ou tíner. Isso põe a gente doidão, mas passa depressa. Ele queria uma viagem maior, dessas que jamais terminam. Queria estar sempre forte e poderoso, e era possível, se conseguisse duas coisas: uma moto e um revólver. Tinha um punhal, vivia com esse companheiro dentro de sua camisa, dava-lhe um certo prestígio perante a molecada. Mas uma arma de fogo, ah, isso sim, seria demais! Podia ser assaltante de respeito, desses que polícia nenhuma pegava. Que nada – ia ter tanta grana que pagava os tiras, levando todos eles na coleira.

Ondina
Lá de fora, da noite, veio um som confuso, um lamento estertoroso.
Ondina escutou: vozes. Os vizinhos que saíam às portas, discutindo, praguejando. Que estaria acontecendo? Délio retirou a mão que a agarrava e ficou muito quieto, tentando escutar, tentando entender. No quarto, o pai continuava dormindo – ela ouvia os seus roncos.
Mas, o que estaria acontecendo? Por que reclamavam tanto?
_ A luz. Acabou o raio da luz.
Então era isso: a luz havia apagado.
Não fossem as vozes, nem saberia que estavam no escuro, dava no mesmo. Os cachorros mais próximos começaram a latir, e mais ao longe outros responderam, cada vez mais longe, até que houve um uivo único se espalhando nas trevas. Faltava luz na favela. E lá embaixo, no bairro dos ricos?

Isadora
_ Meu Deus! A Luz!!!
Não compreendia... Uma luz repentina desabara sobre eles? Por que a luz os aterrorizava?
A dúvida durou um segundo – não fosse o bulício da festa ela teria percebido antes: A luz se apagou, é isso que os assusta . Mesmo cega era uma percepção que não a havia abandonado – a claridade continha um certo calor que ela sentia na pele.
Mas não entendo por que se afligem tanto. Parece que foram abatidos por uma catástrofe, ou que a sala foi de repente invadida por fantasmas. .
Continuavam os xingamentos, soluços. Josélia estava totalmente histérica, gritava que o ar lhe faltava. Por que o ar? O que lhe falta é luz. As pessoas, sempre as mesmas, confundindo as coisas – não distinguem sequer as percepções que têm do mundo.

><><

Outras obras da autora:
. Beija-flor no arco-íris (romance)
. Pássaro Submerso (romance)
. O monstro da floresta (infantil)
. A canção do verdureiro (infantil)

Inéditos:
. A vida secreta de Luísa (romance)
. As margens do rio (contos)
. Mãe de pato, mãe de pinto (infantil)
. Viagens (crônicas)

 

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