O seu conteúdo literário preferido na tela do seu computador!
 
Página Inicial - Aventuradeler.com

A que viemos

Aventura de ler

Sala de aula

Livros

Transversais

Contos

Crônicas

Poesias

Biografias

Assim falou

QuizArte

Cinema

Colunas

Bibliografia


Crônicas

Viagem II

Que alívio quando o ônibus com um festivo e arquejante balanceio começa a deslizar e resolutamente sai da Rodoviária. Primeiro me atinge o impacto do tráfego pesado: os carros furiosos, as buzinas, os semáforos, os sinais – mas já nem me incomodam mais, pois sei que tudo isso está ficando para trás. Para trás ficam os que correm, aceleram, buscam cobiçam, ameaçam, se atropelam. Para trás... Basta fechar os olhos e esperar – pouco a pouco a cidade se afasta até dissipar-se totalmente, apagando-se da vista e dos pensamentos. O que tenho agora é uma paisagem calma e vegetal, serena, reconfortante – capim, árvores, arvoredo; o verde dos campos e das poucas matas remanescentes muito ao longe se esmaecem num azul gris esverdeado, nessa cor macia e cintilante, que nos desperta o desejo de pincéis e tintas para dizer em cores aquilo que não tem nome.
Confortadoramente a poltrona me aconchega, me permite olhar pelo vidro e gozar a ilusão da “paisagem que rapidamente passa por nós” Então me lembro daquele homem da Rodoviária, daquele pai de família – do seu assombro ante a minha docilidade ao aceitar a decisão do trocador. E de sua pergunta perplexa:
“Dona, a senhora, quando viaja – pra qualquer lugar serve?”
Arbustos e árvores, céu de um azul volúvel... inevitável o devaneio.
Ah! gostaria tanto que fosse exeqüível e natural a idéia que aquele homem tomara por uma loucura. Sim! Que, quando eu viajasse, qualquer lugar servisse! Chegar à Rodoviária e tomar um ônibus ao acaso – um desses que vão bem longe, que seguem longo destino – parando por cidades e povoados, recolhendo toda essa gente honesta e sossegada que espera à beira do asfalto, aqueles que vão simplesmente a alguns quilômetros adiante, visitar um compadre, um parente, ou fazer uma comprinha na venda do vilarejo mais próximo.
Não ter pressa nenhuma, nenhum compromisso – gozar essa liberdade esplêndida de ir a qualquer lugar ou a lugar nenhum – contemplar outros campos, outras matas, outros rios e veredas. Afundar-me de corpo e alma no desconhecido, deixar acontecer...
E quando chegasse a uma povoado bem bonito e aconchegante, talvez num vale ou na encosta de um morro, e sentisse que aquele era o lugar que meu coração desejava – ali eu desceria, com minha parca bagagem ( talvez ante o olhar atônito do motorista ao ver que minha passagem estava marcada para ir até o fim da linha).
E ficaria um instante, olhando para os lados, assuntando... sentindo os cheiros e formas e cores, a temperatura afetiva da cidade.
A estreita rua descalça faz uma curva, onde será que vai dar? Que haverá depois? Este será apenas um dos inúmeros pequenos segredos que aguardam a fome sem nome que antes afligia meu coração.
Pego minha mochila e vou andando sem pressa (as janelas me olham) , sem medo, sem espera. De qualquer forma o inesperado vem ao nosso encontro.
A rua dá numa praça – linda! – de frente para uma igrejinha quase barroca, branca e azul, suas duas torres buscando descoloridas nuvens.
Paro, olho, saciada com a alegre certeza: era isso que minha alma e meu coração desejavam.
Entro num bar, peço um copo d´água. O homem é simples e correto, me serve sem fazer perguntas, apenas responde ao meu “boa tarde”. Pergunto onde posso encontrar uma pensão, um hotel, qualquer lugar onde possam me acolher.
_ Logo ali, na rua atrás da igreja, Hotel Central. É de família, é limpo, tem boa comida.
Pago, agradeço, me despeço.
Mas antes de seguir, sento-me num banco da praça e ali permaneço, observando os canteiros de florinhas tão docemente caipiras, maquiadas como para uma festa junina. Árvores eternas de tão velhas, as grossas e rugosas raízes alteando-se à flor da terra. Um ou outro velho sentado num banco, alguns aos pares, conversando, as coisas de todo o dia talvez, os pequenos fatos da gente da terra – quem nasceu, quem morreu, o compadre que vendeu sua mulinha pra ir na Aparecida do Norte, cumprir promessa; ou falam sobre o passado, os velhos tempos, que foram belos, e que parecem mais belos agora, filtrados pela generosa cortina da memória.
Crianças voltam da escola, borboletas borboleteiam, um passarinho desafina todo animado num ramo da árvore.
Tenho sede, tenho fome – tenho tempo. Lentamente me levanto, atravesso a praça, contorno a igreja – logo avisto a casa de grandes janelas, dois pavimentos e a tabuleta; Hotel Central.

A mulher que me recebe é afavelmente gorda e maternal, me recebe como se esperasse por mim, como se desde sempre me esperasse. Leva-me para o melhor quarto e subimos juntas a escadaria de madeira lavada que range sob nossos pés. Ela abre uma porta e percebo sua ansiedade enquanto observo. Uma cama de jacarandá, cadeiras de palha, a cômoda, o guarda-roupa. Sobre a mesa uma moringa, e cobrindo a moringa um guardanapo de crochê. Branquíssimo e lindo! Um vaso com margaridas. Branquíssimas e lindas!
Na parede, dois quadros à cabeceira da cama: uma estampa de São Francisco e a paisagem de um mar calmo e inexato... lembrando imensitudes sem limites aqui entre estas montanhas de Minas Gerais.
Os lençóis alvíssimos cheiram a jasmim e os travesseiros exalam o perfume de macela.
Volto-me para a dona do hotel, tranqüilizo sua ansiosa expectativa:
_ O quarto é lindo, muito obrigada; já sei que vou gostar demais.
Ela suspira aliviada, oferece seus préstimos:
_ A senhora precisando, é só chamar. Meu nome é Ordália.
Sai. Fecha suavemente a porta atrás de si. Me deito, me deleito no colchão de paina, nos travesseiros de macela – relaxo os músculos do corpo, solto os tendões da alma – cochilando um cochilo sossegado, sem qualquer angústia ou espera ou desejo. Sem sequer imaginar que a noite chegará – e que chegará com a noite? Talvez na pracinha haja um violão e cantorias, modas de viola, gente honesta e simples ao redor de uma fogueira; certamente vão contar histórias, relembrar coisas, ou simplesmente divagar sobre as acontecências de mais um dia de vida... Minha presença será para eles apenas uma acontecência a mais, que não causa nenhum acanhamento ou estranheza. Simplesmente mais uma irmã que chegou: que se acomode a gosto, que fique à vontade – sem espanto, sem perguntas – sob o céu baixo de poucas estrelas, o campo semeado de vaga-lumes e este calor generoso da fogueira que vai se queimando devagar.
Mais tarde eu dormiria tranqüila entre os lençóis macios do hotel tão confortantemente doméstico e único na cidade. Despertaria no dia seguinte ao som de pássaros e aves – e teria com certeza o melhor dos cafés com rosquinhas e broas preparados pelas mãos maternais de Ordália. Depois sairia – cumprimentaria as pessoas, como velhos conhecidos. Iria mais longe, por campos, outeiros, matas; buscando vales, veredas, atalhos. E assim, iria ficando. Por quanto tempo?
Pelo tempo que meu coração pedisse. Até que me voltasse o incontido desassossego, esse irrefreável desejo de buscar outros caminhos, outros destinos – porque esse é um defeito atávico de minha alma nômade: está sempre com vontade partir.


Maura Maciel

Todos os conteúdos deste site estão registrados. Maura Maciel. - Todos os direitos reservados © 2010 - Desenvolvido por Anselmo Pereira