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Viagem

Estou na Rodoviária, vou para Baependi. Como são muitas e próximas essas cidades do Sul de Minas, a empresa varia o destino final e o percurso nos diversos horários, aumentando assim as opções de quem viaja, não importa qual seja a cidade. O trocador, acostumado a seu trabalho, já tem uma organização pronta em sua cabeça em relação ao itinerário, e vai colocando a bagagem na ordem de descida dos passageiros – as malas dos últimos a descerem vão lá para os fundos e as outras cada vez mais na frente, na seqüência dos desembarques. Desta vez, o ônibus que vou tomar não passará por Baependi, descerei em Caxambu, onde haverá alguém à minha espera.

Enquanto aguardo que minha mala seja colocada no bagageiro, observo o burburinho e a pressa ao meu redor: pessoas que descem e sobem escadas, vendedores de água e chocolates, carregadores apressados; despedidas: mães dando as últimas recomendações aos filhos, filhos envergonhados ou irritados com os ostensivos cuidados maternos.
Um pouco atrás de mim, esperando também, está uma família – pai, mãe e filho – uma família de aspecto modesto e ar assustado. Imagino que é a primeira vez que viajam, que enfrentam o alvoroço de uma rodoviária. Os três estão muito juntos, vigiam com excessivo desvelo duas malas e algumas sacolas de plástico, à espera de seu ônibus. A mulher parece defender-se de alguém ou de alguma coisa, no gesto de apertar com as duas mãos uma bolsa de plástico amarelo. O homem é sisudo e compenetrado, tenta aparentar uma segurança que está longe de possuir, fumando um cigarro em fundas baforadas. Enquanto os olhos grandes do menino vagueiam perplexo pela multidão ensandecida pela pressa, suas mãos agarram com força a saia da mãe. Ele observa os ônibus-monstros que chegam e saem, os carregadores com seus carrinhos abarrotados (sabe Deus de que inúteis bagagens), os gritos dos garotos apregoando refrigerantes e água mineral.

Discretamente observo essa família, e vou tecendo conjeturas: estarão voltando para sua plácida cidade do interior? Talvez morem em algum bairro do subúrbio e vão visitar a mãe, uma avó ou tia, alguém cuja imagem já empalideceu, na distância e na saudade. Ou quem sabe terão economizado durante anos um dinheirinho para sair, pela primeira vez na vida, numa viagem de férias?
O menino a custo contém sua excitação, admirando com o devido maravilhamento o tamanho do ônibus que o engolirá dentro de alguns minutos e o conduzirá em direção a um destino desde sempre imaginado. Que sente sua alma na iminência dessa inesperada aventura? Será que ele...
_ Para onde?
O berro do trocador, quase no meu ouvido, me arranca do devaneio; me assusto:
_ O quê?
Ele, mal-humorado:
_ Pra onde é que a senhora vai?
_ Baependi.
Brusco, contrariado, categórico:
_ Baependi, não! Caxambu!
_ Ah, é... Tá. Caxambu... – concordo meio encabulada.
O rapaz arremessa minha mala para dentro do porta-bagagem, me dá o tíquete e já transfere seu mau humor para outro passageiro. Eu me viro e dou de cara com o pai da família que antes eu observava. Agora é ele quem me observa, e leio mais do que timidez em seus olhos pasmos. Vencendo o acanhamento, me faz a pergunta irrefreável:
- Dona, me desculpa a ousadia, mas... a senhora quando viaja, qualquer cidade serve?


Maura Maciel

 

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