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Ulisses

Há mais de 20 anos tenho esse livro do Joyce, e já comecei a lê-lo umas... vamos dizer: mais ou menos sessenta vezes. A cada tentativa, penso: "desta vez vai". Não vai. Li outro dia declarações de gente famosa dizendo ter conseguido ler a comentadíssima e polêmica obra. Um deles declarou que leu, gostou tanto que vai ler de novo. Será? Vai ver que leu que nem eu li: um record de 61 páginas - fui lendo, lendo, lendo, sem entender nada. Minha intenção era depois continuar a ler e ir até o fim, mesmo sem entender nada, e então eu poderia dizer com orgulho para mim mesma: Plantei uma árvore, tive um filho e li o Ulisses. Mas, infelizmente, o "Ulisses" acho que vai ficar para a próxima encarnação.

Eu tenho um amigo... é um cara assim, simples pra caramba, engraçado pra caramba - e sábio pra caramba. Só pra se ter uma idéia: aos 22 anos de idade, ele sabia Latim, Grego clássico e moderno, e... tinha lido toda a obra do Joyce. Riu seu riso maroto quando eu lhe disse das minhas vãs tentativas de, pelo menos, começar a ler o "Ulisses".  Me falou assim, de maneira simples e casual: Ah, eu fiz um trabalho sobre ele. Se você quiser, eu te empresto. Embasbaquei - mas aceitei na hora.  Radiante: agora, com um roteiro desse em minhas mãos, vou conseguir ler esse livro, vou tirar de letra, literalmente falando.

Mal consegui esperar o dia seguinte para receber de meu amigo sua análise comentada: enfim uma chave para minha leitura! Aí, no dia seguinte, ele chegou com uma pastinha de umas 100 páginas, encadernadas de verde. Peguei como se pega um tesouro - mas ao abrir: Não acredito!

Ele havia lido o "Ulisses" sim - em Inglês! E era em Inglês que ele analisava o livro e tecia seus despretensiosos comentários sobre a estrutura do mesmo, a construção e descontrução da linguagem, as imagens, a simbologia...

Sem comentário, devolvi sua pasta e convidei pra tomar uma cerveja na Cantina do Lucas. Fomos. Enquanto jazia num canto a encadernação verde, pedíamos outra cerveja, e mais outra, e eu pedi que ele me explicasse o que escrevera e ele explicava: era uma exegese etílica da melhor qualidade e juro que, enquanto ele discorria sobre o assunto, eu conseguia percorrer com ele a trajetória de Bloom, e compreendia tudo, foi uma verdadeira epifania!

Na manhã seguinte, porém, amanheci mais burra do que nunca - e não me recordava de mais nada do que ele falara. Até hoje, em minha estante, o livro jaz. Vez por outra ainda ouso abri-lo, ler um pouco - mas aos poucos as imagens vão-se misturando com outras imagens: da Rua da Bahia, do Edifício Maleta, dos bêbados sonhadores da Cantina do Lucas; daquele meu amigo tão sábio e tão simples... e da nossa louca, pouca e absurda juventude.

Volto ao livro, pensando neste Bloomsday que estão comemorando. Ah, a relatividade do tempo! Vinte anos para conseguir "não ler" um livro cuja história se passa em 24 horas.

Maura Maciel

 

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