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Crônicas

Setembro de 80 em Bagdad

Ontem, Bagdad à noite, beira de rio, o rio Tigre, restaurantes iluminados, carros passando, um luar enorme sobre a cidade. À noite a cidade perde o trivial do hábito da gente e pode ser até Bagdad de Ali Babá e das mil e uma noites. Sendo essa apenas mais uma.
O restaurante sob as sebes, as muitas luzes serpenteando coloridas às margens do rio. Vozes, risos, a alegre algaravia que não entendemos mas já se tornou familiar aos nossos ouvidos. A cerveja, o pistache. Casais e famílias iraquianas, bebendo, comendo, conversando - sendo apenas simples e felizes, eles que são gente assim: apenas simples, querendo ser feliz. O homem da polaróide quer nos fotografar, deixamos, queremos essa fotografia, esse momento, o registro dessa noite.

De repente o alto-falante anuncia. Anuncia algo que não entendemos, a não ser esparsas palavras como Khomeyni, Chatt al-Arab, Bagdad... As pessoas começam a se levantar, pagam suas contas, deixam o restaurante. O restaurante está sem luz? Apagaram-se as luzes às margens do rio? Não percebemos. O luar é um manto espesso e espessas são as névoas da cerveja iraquiana em nossas cabeças. Ainda rimos, conversamos. As luzes. Vão-se apagando.

Os garçons talvez gostassem que fôssemos embora, olham a noite, perscrutam o céu. Esperando algo que não sabemos.
Mais de meia-noite. Pagamos a conta. Vamos embora? Vai ser difícil encontrar um táxi a essa hora. E depois haverá a costumeira discussão com o motorista para combinar o preço da corrida. Eles sempre pedem dez dinares e a gente sabe que não vale mais do que três. Mas à noite... negocia-se, podemos pagar até cinco. Que equivale a quinze dólares.

A avenida escura e nem estranhamos, por causa da lua - essa noite clara, imensa, coberta de densa calma que não compreendíamos. Os carros com as luzes baixas, a maioria com os faróis apagados. Não prestamos atenção.

Depois de inúmeros inúteis sinais, um décimo táxi parou para nós, era quase uma da madrugada. Meu amigo diz:
_ Good nigth, sadik. Randari. Baden Abu-Greb. How much?
_ Baden Abu-Greb? (Depois de Abu-Greb?) Ten dinar - ele foi incisivo.
Uma luta explicar que não somos marinheiros de primeira viagem, sabemos o preço da corrida, etecétera e tal. O homem está muito nervoso, aponta o céu, repete: Khomeyni, war, war! Sim, the war, já sabemos - e daí? Há dias começara a guerra, mas era guerra de fronteira, por ali não acontecia nada. Vencidos pelo cansaço, concordamos, no entanto, em pagar os dez dinares.
A cerveja pesando no estômago. Realmente não percebíamos que aquela não era uma noite como outra qualquer. No posto policial da rodovia, onde sempre havíamos passado sem problemas a qualquer hora da noite ou do dia, fomos agressivamente detidos: Passaport! Nunca nos haviam detido antes, nunca foram agressivos. Apresentamos os passaportes, apresentamos explicações: Brazilians. Sherika bresilía (empresa brasileira). Deixaram que fôssemos.

Fomos. O carro pifando, o árabe xingando, meu amigo brigando, Marcinha dormindo, e a gente nunca que chegava, o carro pifando, o motorista querendo nos deixar na estrada, nós brigando.

Finalmente chegamos, e no acampamento todas as luzes apagadas. No bar do hotel nos esperavam aflitos, os amigos, e explicaram: que o Irã ia atacar Bagdá naquela noite e por isso tudo estava no escuro - mas havia lua cheia! - e nós? por onde havíamos andado?
A noite muito quieta lá fora, com medo de fazer barulho.
A noite é muito calma e tem uma guerra lá fora.

Havíamos caminhado na cidade sem luz, éramos inocentes e alegres no ventre enluarado da cidade, não sabíamos que de repente o luar podia ser violentado pelos aviões com suas bombas e terror e morte.
Do tênue fio da vida não sabíamos. Éramos apenas três amigos tomando cerveja, comendo pistache, rindo e conversando, passeando inconseqüentes as ruas de Bagdá.

Também não sabíamos que aquele motorista de táxi havia sido um milagre que nos levou sãos e salvos de volta para casa - e nós brigamos com o milagre por causa de dez dinares.

 

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