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Meu primeiro texto

Eu tinha então seis anos na varanda de nossa casa que dava para a parede da casa da vizinha que era uma velha senhora com uma neta da minha idade. Não gostava nem um pouco de mim essa garota, nem eu dela, a gente vivia se insultando e trocando desaforos, mas geralmente era ela quem começava, eu era de natural uma menina mais calada, só que não agüentava desaforos. Fosse como fosse, a velha senhora avó dessa menina acabava sempre me xingando, eu ficava muito fula da vida por ser sempre a culpada, aí um dia ela me xingou demais, de verdade, a avó, e eu fiquei muito fula de raiva, foi muita injustiça, e entrei em casa, atravessei as três salas e a cozinha e fui parar no quintal, e no quintal encontrei um monte de carvão que a cozinheira havia jogado, e eu logo tive uma idéia, peguei um carvão e entrei em casa, atravessei a cozinha e as três salas, saí em nossa varanda e fiquei espiando a parede da casa da menina que me provocou e da velha que me xingou. A parede estava muito bem recém-pintada, de um amarelo-claro, todo aquele espaço claro na minha frente, e eu com o carvão. Inspirei bastante ar pra ficar inspirada, assestei o carvão e com todo o gosto escrevi na parede daquela casa: a çalica e uma boba

Me afastei alguns passos e fiquei olhando com certo deslumbramento, uma satisfação tão grande que aquilo com certeza tinha que ser bom, mas aí meu pai saiu à varanda e ficou olhando o que eu tinha feito. Ele disse muito sério “vá lá dentro, traz um pano e apaga isso que você escreveu.”
Sem tugir nem mugir entrei na casa, atravessei três salas, e na cozinha encontrei um pano de prato velho e voltei com ele na mão e debaixo do olhar de meu pai comecei a apagar o escrito, só que escrevera com muita força e o carvão devia de ser muito bom, por mais que esfregasse não saía direito, o pano foi gastando, eu ralei os dedos e lá estavam as sombras das palavras no espaço claro da parede, até que meu pai também desistiu e disse “agora venha cá” e me levou para a sala, sentou-se e me mandou sentar, então me disse: “Está errado rabiscar a parede dos outros, a parede limpinha dos outros, isso não se faz.”

E mais: “Tampouco se podem escrever coisas ofensivas às pessoas, ainda mais a uma senhora.” Pausa. “Entendeu?” Eu disse que tinha entendido. Aí então, ele pegou uma folha de papel e um lápis e reproduziu a frase tal qual eu a escrevera, me puxou pra junto dele e mostrou “aqui temos alguns erros.”

Em cima do a escreveu um A e explicou “toda frase começa com letra maiúscula”. “E termina com ponto final” disse, colocando o ponto final no fim. “Este e é um verbo, tem que ter acento”, ajuntou, acentuando a palavra. E depois: “Çalica. Não se começa palavra com C cedilha, e aqui são duas, não apenas uma palavra. O certo é Sá Lica, sendo que esse Sá é uma variante de Siá, que por sua vez é uma abreviatura de Sinhá, que é o mesmo que Senhora.”

Essa foi a parte mais interessante da lição, eu nunca tinha imaginado... “Entendeu, minha filha?” – ele perguntou me olhando bem nos olhos. Eu disse que sim e ele reescreveu e me mostrou a frase. Na letra elegantemente hasteada de meu pai, ela parecia diferente, revestida de estranho prestígio – como se eu houvesse realmente criado uma grande coisa.

Então ele me entregou a folha – “agora você vai lá na cozinha e coloca esse papel no fogo.” Eu fui. Atravessei mais duas salas e, na cozinha, nas chamas que balançavam debaixo do caldeirão de feijão, eu joguei aquela folha e em um pequeno segundo ela enrolou-se sobre si mesma, apenas uma fita vermelha, e logo desfez-se em cinzas.

Eu estava contente. Gostei desse meu primeiro texto e gostei da forma como ficou, depois de reescrito por meu pai. Talvez eu sentisse que isso já fosse tipo uma letra impressa, não sei. Mas havia aprendido que a palavra escrita serve de desabafo e protesto. E foi também uma primeira lição do que consiste a censura à imprensa.

(Maura Maciel)


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