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O que deseja uma mulher (II)

Aqui vai a narrativa do resto da história de Gawen e da feiticeira com quem ele se casou para salvar a vida do rei Artur.
Diante da pergunta “o que deseja realmente uma mulher”, a feiticeira deu, pois, a resposta: “Ela quer o domínio de sua própria vida.”
Todos viram que era a própria sabedoria feminina que falava, e que o rei Artur estava salvo, mas... o matrimônio tinha que ser realizado.

Chegado o momento, reuniu-se toda a corte e todos se sentiam divididos entre o alívio e a pena. Gawen se mostrava amável e cortês como sempre, mas a asquerosa mulher parecia fazer questão de ostentar o que possuía de mais desagradável e grosseiro; nunca a corte de Artur se vira submetida a tal estado de tensão, mas prevaleceu a cortesia e as bodas foram celebradas.

Terminadas as cerimônias e o banquete, Gawen foi com sua noiva para a alcova nupcial – e aqui a lenda nos poupa dos detalhes, exceto o prodígio que em dado momento se deu: de repente, ao lado de Gawen estava a mais linda e encantadora donzela que qualquer homem pudesse desejar. Assombrado com o fato, Gawen perguntou a ela o que havia sucedido.

A formosa jovem lhe respondeu que, como ele havia sido amável e atencioso, ela seria para ele duas mulheres: a metade do tempo, uma velha e horrenda feiticeira; e, na outra metade, uma bela e delicada dama. Cabia a ele escolher: qual desejava para o dia e qual para a noite?

O cavaleiro, perplexo diante de tal possibilidade, não sabia como decidir: ter uma jovem encantadora para apresentar a seus amigos durante o dia, e uma bruxa repugnante na privacidade de sua alcova? Ou uma bruxa repugnante durante o dia e uma adorável donzela nos seus momentos mais íntimos?

Como Gawen era um homem nobre, respondeu-lhe que deixaria que ela decidisse por si mesma. Ouvindo isto, a donzela lhe respondeu que seria para ele, dia e noite, a mesma dama bela e graciosa, uma vez que ele havia respeitado que ela tivesse o domínio de sua própria vida. FIM.

O ciclo de histórias da Távola Redonda gira em torno da corte de Artur, rei lendário de Gales, que teria vivido por volta do século V. Situando-se pois essa lenda nos primórdios da Idade Média, não é de admirar-se que as pessoas mais sábias da época tomassem como indecifrável enigma a questão sobre o desejo da mulher.

O que causa espanto é que 15 séculos depois, um gênio da estatura de Freud seguisse perguntando totalmente perplexo: O que quer a mulher? E que, por falta de resposta, fechasse a questão a respeito da metade da raça humana – a feminina, é claro – denominando-a continente negro.

Todos sabem que Freud teve uma verdadeira corte em Viena, freqüentada pela mais importante intelectualidade européia da época e que, dessa corte, faziam parte mulheres belas, interessantes e inteligentes – nada menos que, entre outras, Marie Bonaparte, Lou Andreas-Salomé, Karen Horney... Esta última, aliás, também psicanalista e pesquisadora analítica respeitada “como qualquer homem” na comunidade psicanalítica e que afirmou, contestando a unilateralidade do mestre em relação ao sexo feminino: “A razão disso é óbvia. A psicanálise é criação de um gênio masculino, e quase todos os que têm desenvolvido suas idéias são homens.”

Ela tinha um defensor masculino para a sua posição científica: Ernest Jones, o psicanalista inglês – com o qual, aliás, o gênio da psicanálise não permitiu que sua filha Ana se casasse.

Certa vez Marie Bonaparte disse ao mestre “O homem tem medo da mulher“, ao que este respondeu: “E ele tem razão.” Mas foi uma pena que entre tantas outras brilhantes mulheres que o cercavam, não tenha havido nenhuma que ousasse contestar:

_ O que quer a mulher, Doktor Freud? O mesmo que o homem: dar e receber afeto, atuar no mundo de maneira livre e criativa, viver sua vida em paz e com dignidade.

É o que continuamos querendo. Esperando que a utopia um dia se torne real e seja compartilhada por todos os seres humanos, homens e mulheres.

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