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O que deseja uma mulher (I)

Outro dia recebi de um amigo um conto de uma época que exerce sobre mim especial fascínio e me traz um sentido de magia e deslumbramento: a poética cavalheiresca dos tempos medievais.
Eu não conhecia essa história e vou  resumi-la o melhor que posso.

"Sendo ainda muito jovem, saiu um dia Artur a caçar e acabou por invadir o território de caça do reino vizinho, crime imperdoável na época, cuja punição  era a morte. Foi descoberto, levado à presença do rei e condenado a morrer enforcado. Mas, compadecido da juventude e importância de Artur, também rei em seu próprio reino, fez-lhe o vizinho uma proposta: seria solto e poderia escapar à morte se, dentro do prazo de um ano, lhe trouxesse a resposta a uma pergunta.
_ Só isso? Responder a uma pergunta?
O jovem, despreocupado e inconseqüente, logo afirmou que, de bom grado, aceitava a condição. Qual era a pergunta?

O rei disse:
_ O que deseja uma mulher?

Aliviado pela maneira fácil como se livrara da pena fatal, Artur retornou no mesmo instante ao seu castelo; convocou seus cavaleiros e os sábios do reino, certo de que qualquer um deles lhe daria a resposta. Qual não foi o seu espanto ao perceber que todos eles, desde os mais jovens aos mais velhos, todos eles se mostraram embaraçados e perplexos, pois nenhum, na verdade, jamais havia pensado na questão, e nem de longe conseguia imaginar o que realmente deseja uma mulher.
Irritado com a ignorância dos homens de sua corte, Artur presumiu que uma mulher, qualquer que fosse, ela sim,  poderia com certeza lhe falar de seu próprio desejo. Saiu, pois, à procura das mulheres: damas e princesas, donzelas e matronas, monjas e rameiras, aristocratas e camponesas - e nenhuma pôde dar-lhe uma resposta segura, pois cada qual dizia o que desejava de acordo com a sua condição na vida.
O tempo passou, o prazo se esgotava e o jovem Artur já não sabia o que fazer para cumprir a condição que o livraria da morte. Informaram-lhe, então,  que vivia no bosque uma bruxa muito velha e muito sábia; que essa mulher, certamente, lhe revelaria o que para ele, a essas alturas, já constituía obsessivo enigma. Contudo, havia um problema: a mulher tinha por hábito  cobrar muito caro por suas consultas.
Desesperado, empenhado numa questão da qual dependia sua própria vida, Artur não hesitou em ir até a bruxa, sem se preocupar com o custo, desde que ela respondesse à crucial pergunta.
A velha feiticeira recebeu o rei afavelmente, disse que teria todo o gosto em servi-lo, mas logo estabeleceu seu preço: Queria  casar-se com Gawen, o mais jovem dos cavaleiros da Távola Redonda,o mais belo, mais cobiçado pelas damas da corte, o  mais admirado pelos seus  pares.
Artur horrorizou-se diante dessa proposta -  era impossível aceitar tal idéia:  que seu belo e jovem amigo se casasse com essa mulher horrenda, repulsiva e  asquerosa. Gawen, porém, altruísta e generoso, não hesitou por um instante em salvar a vida de seu rei e garantir a continuidade da Távola Redonda:  prontamente anunciou que não faria nenhuma objeção em casar-se com a bruxa.E Artur, sem escolha, foi obrigado a aceitar o sacrifico do seu nobre  cavaleiro.
A feiticeira, então,  com um sorriso malicioso e desdentado, repetiu a pergunta:
_O que deseja  uma mulher?
Para, logo em seguida, dar sua resposta:
_ O domínio de sua própria vida.
Todos se admiraram com a  inesperada solução  para aquilo que lhes parecera um indecifrável enigma.

Bom, a história continua, outro dia eu conto.
Passo para um filme, que peguei na locadora. "Em luta pelo amor"  é a tradução que deram em português para o filme de Marshall Herskovitz - "A destiny for her own". Um destino para si mesma, ou: dona de seu próprio destino...  Não sei qual seria a melhor tradução para o título.

Conta a história de Verônica Franco, cortesã veneziana dos fins do século XVI. Vivendo numa cidade de homens cultos e mulheres analfabetas, que eram consideradas propriedades dos pais ou maridos,  Verônica Franco se tornou  cortesã e se impôs como intelectual, como mulher e como pessoa, participando de discussões literárias e políticas junto aos mais importantes homens da cidade, clero e nobreza. Acusada pelas esposas e pela Igreja de, por sua vida "pecaminosa" atrair a peste que dizimava o povo de Veneza, Verônica Franco é presa e tem que enfrentar a Inquisição.
 
O julgamento acaba se tornando extremamente polêmico, e seus juizes  lhe oferecem o perdão, desde que ela confesse seus pecados.  Durante o interrogatório, no entanto, ela desmascara a Igreja e o Estado, que usam hipocritamente a prerrogativa  de julgá-la.

E confessa. Confessa seu direito ao amor, à paixão, à liberdade e ao prazer; o direito de escolher seu próprio destino, de buscar os caminhos que seu coração deseja, de resolver por si mesma em que valores repousa a sua própria dignidade.

Não vou contar o final do filme, mas a lenda - a história de Gawen - a ela voltarei em uma das próximas crônicas.

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