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Crônicas

O fotógrafo

Ele chegou na hora marcada. Cumprimentou-me de maneira muito simpática e foi logo anunciando:
_ O editor disse que é pra fazer as fotos junto ao computador.
Não pude evitar a queixa de “ outra vez”? e ele riu:
_ Eu também já estou meio enjoado desse negócio. Sempre que o assunto é Internet, vão logo mandando: não se esqueça, faça as fotos da pessoa trabalhando no computador.
Expliquei-lhe que meu escritório é na verdade um quarto minúsculo e tem pouco espaço para tirar fotos, mas ele pediu licença, adentrou-se pelo apartamento e achou que o espaço do escritório estava ótimo. Sugeriu poses, posou para mim, mostrando como e onde ficaria melhor, tentando me passar seu entusiasmo com repetidas exclamações de “ vai ficar ótimo”, “vai ficar linda assim, você vai ver”. Embora totalmente céptica em relação à possibilidade de ficar linda, me descontraí, comecei a rir e, obedientemente, fiz as poses que ele queria, enquanto conversávamos. Foi rápida a sessão, em menos de 20 minutos ele se deu por satisfeito, guardou a máquina e pediu que eu lhe mostrasse as páginas da Internet onde estavam meus livros. Adorou AMOR e-mail :
_ Puxa, mas essa capa está demais! O desenho, as cores, essa coisa de Idade Média com o @ . Muito criativo. Quem foi que bolou isso?
_ Um amigo meu.
_ Fazer letra gótica foi uma idéia genial. Combinou direitinho com o desenho.
_ Essa idéia foi do Johnny.
Mostrei-lhe o outro livro, e ele disse que também tinha uma capa linda; disse-lhe “ foi o Johnny quem fez” , mas ele já me perguntava se era possível imprimir. Imprimi a última crônica para ele.
_ Que coincidência! – ele disse. Essa crônica fala de Andaluzia. Minha família é de origem espanhola, justamente do Sul da Espanha. Embora meus avós tenham vindo de Portugal.
E sem pausa, olhando para as estantes:
_ Você tem todos os José Saramago aí, estou vendo. Também adoro esse cara – apesar de que faz muito tempo que não tenho tempo de ler um livro.
Ajuntou:
_ Agora leio quase só coisa de jornal, revista. É por isso também que adoro crônica: a leitura é mais rápida e divertida.
Passou a falar dos seus cronistas prediletos e dos que detestava, e depois, nostálgico:
_ Mas bom mesmo é a gente pegar um livro bem grosso, deitar numa rede e esquecer do resto do mundo...
Nesse mesmo instante descobriu na estante “A Guerra do Fim do Mundo” . Abriu um sorriso de aprovação:
_ Feito este! Ô livro bom! Na próxima vez que o Llosa vier a Belo Horizonte, vou pedir um autógrafo para ele.
Explicou, meio desconsolado:
_ Ele já veio duas vezes, mas eu estava trabalhando noutro lugar, foi pena...
Voltando ao livro:
_ Já li umas três ou quatro vezes. É bom demais.
_ E o Euclides da Cunha, você leu? – perguntei.
_ Li, mas a história do jeito que o Llosa conta é muito melhor, mais interessante. O Euclides, você sabe: nem era escritor.
Diante do meu pasmo, ele explica:
_ Era engenheiro do Exército, estava abrindo estrada para as tropas do governo, pra eles conseguirem chegar a Canudos.
_ Pensei que ele fosse jornalista...
_ Mandava matéria pros jornais, sim, mas estava lá era como engenheiro.
Voltou outra vez ao assunto das origens de sua família.
_ Sou descendente de ciganos, na minha família tem gente de tudo quanto é cor – teve muita mistura, entende?
Continuou:
_ Alguns são escuros, foi por causa do mestiçamento com índio.
Mestiço de cigano com índio...
_ Para ser escuro deve ser mistura com negro – eu falei.
_ Não. Índio também escurece.
Outra vez me recolhi à minha humilde ignorância.
_ O sangue cigano faz a pessoa ser muito inquieta – declarou. Tenho uma irmã que não pára em parte nenhuma. Quando a gente pensa que está satisfeita num lugar, ela já está mudando para outro.
Perguntou:
_ Na sua família tem alguém assim, uma pessoa meio desorientada?
Respondi contrafeita que a pessoa mais desorientada de minha família (pelo menos na opinião dela própria) sou eu mesma. Ele olhou-me condescendente, mas compreensivo:
_ É: isso é coisa do pessoal da sua profissão.
Levemente alarmada, fiquei imaginando quais seriam os outros sintomas anormais comuns ao pessoal da minha profissão . Mas ele ainda não esgotara o assunto:
_ Tenho também parentes claros, de olhos azuis. Esses vieram de Portugal.
Pediu ajuda:
_ Como é mesmo o nome daquele rio que corta o país?
_ Tejo.
_ Isso. Os meus avós nasceram lá, numa cidade do outro lado do Tejo.
_ Do lado da Espanha?
_ Não: em Portugal mesmo.
Recorro ao departamento geográfico-turístico de minha memória, relembro uma ponte em Toledo, e depois a Torre de Belém em Lisboa, onde certa vez me detive longo tempo a ver navios...
Olhando o relógio, ele subitamente se levanta e se despede, exclamando:
_ Puxa, esqueci do tempo! Ainda tenho que fazer uns cinco trabalhos hoje.
Fecho a porta atrás dele, e fico ali parada, pensando, refletindo... tentando me situar do ponto de vista certo para conseguir entender: de que lado é que fica o outro lado do Tejo?  

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Maura Maciel

 

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