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O cravo, a rosa e A
megera domada

O conceito tradicional de obra clássica ensina que clássico é aquele que serve de modelo ideal, de acordo com as regras estabelecidas.Ou seja: o telespectador que se diverte e se emociona com as peripécias de Petruchio e Catarina no "Vale a pena ver de novo" vive num mundo cujas regras - estéticas e outras - são as mesmas da platéia que se divertia com as comédias de Shakespeare, levadas aos palcos do século XVI.

Errado.
 
Procuro no Aurélio e encontro este conceito mais amplo: Clássico - cujo valor foi posto à prova do tempo. Um clássico é um clássico porque o ser humano muda de roupa e de hábitos, mas as emoções, as grandes emoções humanas, serão sempre as mesmas: o amor, o ódio, a paixão; a ânsia de buscar no outro algo que nos falta, o desejo de ser feliz. E o desejo de rir - quando um grande autor consegue nos mostrar o avesso dessas emoções, satirizando a sua dramaticidade.
 
Foi isso que permitiu aos autores e diretores da novela O cravo e a rosa buscarem a trama principal (e muitos dos detalhes) na comédia de Shakespeare, A megera domada. A peça do grande dramaturgo virou filme, em 1967, com direção de Franco Zeffirelli, tendo Elizabeth Taylor no papel de Catarina: uma Catarina agressiva e furiosa, mostrando o mais fielmente possível a personagem shakespeareana.
 
Adriana Esteves faz uma Catarina que, embora também enfurecida, é encantadora e delicada, exalando toda a charmosa elegância da Belle Époque, tanto na aparência física quanto no gracioso figurino que usa. Contrasta fortemente com o Petruchio de aparência selvagem interpretado por Eduardo Moscovis, mais próximo ao Petruchio original. Gosto dessa releitura feita pelos autores da novela, mostrando que a obra clássica é realmente aquela cujo valor resiste à prova do tempo.

Alguns valores daquela época não fariam sentido hoje.

Por exemplo, a Catarina do século XVI é obrigada a casar-se, pois, mesmo com todo o seu mau gênio e insolência, ela tem que obedecer ao pai. Isto não se aplicaria à novela, cuja protagonista, uma adepta do feminismo, não se dobraria diante da vontade de um pai autoritário. Esta Catarina, apesar de fingir-se áspera e insensível, sacrifica-se (e foi um sacrifício?) em nome do carinho que nutre por sua irmã mais nova. A qual, assim como na peça, não podia casar-se antes da mais velha.

Vale a pena citar alguns fragmentos de Shakespeare, temas recorrentes na novela.
PETRUCHIO. - ...eu me lancei nesse labirinto para casar-me bem e prosperar o melhor que puder.
HORTÊNSIO. - Petruchio, queres que te fale sem rodeios? Queres que te apresente uma esposa irritadiça e desagradável? Prometo que será rica, muito rica. Mas, tu és tão meu amigo, que não poderia desejar ver-te casado com ela.
PETRUCHIO: Venho para casar-me ricamente em Pádua; e se casar-me ricamente em Pádua, casar-me-ei com toda a felicidade.
 
E depois, falando com o pai de Catarina: Não tendes, prezado senhor, uma filha cujo nome é Catarina, bela e virtuosa?
 
E a resposta do pai, ansioso por casar a filha de mau gênio, mesmo que fosse com um grosseirão: Tenho uma filha chamada Catarina.
PETRUCHIO - Mandai chamá-la por favor, por favor; eu a esperarei aqui. E quando chegar, eu lhe farei a corte com decisão. Digamos que me injurie; eu lhe direi então que canta tão suavemente quanto o rouxinol. E que franza a fronte; eu lhe direi que tem o olhar tão límpido quanto a rosa matutina, ainda úmida de orvalho. Digamos que se mostre muda e não queira falar uma só palavra; direi então que tem uma eloqüência persuasiva. Se disser que me retire, eu lhe agradecerei como se tivesse mandado que permanecesse a seu lado durante uma semana. Se negar-se a casar, pedir-lhe-ei que me diga quando farei as proclamas e quando deveremos casar-nos.
 
Depois de alguns percalços, logo os dois já estão casados e Petruchio passa a "domar a fera", deixando-a passar fome, fazendo barulho para que ela não consiga dormir à noite, obrigando-a a vestir roupas deselegantes e mal cortadas, e ainda ironizando: Vinde minha Catarina, iremos para casa de vosso pai com estes trajes simples e decentes. Nossas bolsas estão cheias; pobres, nossas roupas. É a alma que enriquece o corpo. Por acaso, o gaio é mais precioso do que a cotovia, porque suas penas são mais belas?
 
Com medo de despertar a fúria do marido, que resolvera se passar por louco, Catarina passa a concordar com todas as suas maluquices, mesmo quando ele afirma que o sol é lua ou vice-versa. Ela responde: Que seja a lua ou o sol, ou o que desejardes. Se quiserdes chamar uma lamparina de sol, juro que não será outra coisa para mim.
 
Para os apreciadores de Shakespeare, é divertido conferir os elementos semelhantes e/ou adaptados a essa versão novelística da peça. Para os aficionados em novela, é uma motivação para se ler um grande clássico, que nos ensina que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

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