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Nesta tépida manhã de inverno

Nesta tépida manhã de inverno, a grama, o lago, o sol. A temperatura é perfeita, a brisa leve, os ruídos aconchegantes: hastes, folhas, asas, água. De longe ressoam os grasnidos dos gansos; de mais perto, o arrulhar dos pombos. E nos mais recônditos recantos de todos os galhos de árvores, adivinho outros chilros e chilreios das mais variegadas plumagens já nos arranjos de pressentida primavera.

Até o terréque-téque do teleférico que desce e sobe o morro ressona morno como o tique-taque de um relógio atemporal, indiferente a minutos e horas. O bosque, as árvores do bosque subindo quase até o castelinho no topo do morro. Bambuzais, o vento tocando música nas finas flautas flexíveis dos bambus. Infinitas nuances de sons e de cores se orquestram numa harmonia intraduzível, celebrando a epifania desta manhã de sol e de paz.

Uma avezinha escura, de peito branquíssimo, minúscula jóia emplumada, pousa no chão, se aproxima um pouco, pára, me observa; mas logo se enfara, vai embora, voa pra longe. Dou-lhe inteira razão. Que proveito teria ela em ficar por aqui, apreciando minha figura? Este ser bizarro, recostado na grama, debaixo da mangueira, no estranho ato de fazer rabiscos numa folha de papel... Bicho mais esquisito – deve ter pensado. Vou flanar por aí, caçar novidade; o que mais tem neste parque é prodígio, coisas bonitas, que valem a pena. E se foi – que pena! Mas logo esqueço.

Não faz frio, não faz calor, a manhã é morna, a brisa amena; ligeiramente me envolve, me roça, me afaga – resvala leve na minha pele. Nesta repousada beatitude, de quase imperceptível paz, o universo é harmônico, o planeta perfeito, a natureza afinada. Mas já começam a aflorar fortuitas perguntas: por que motivo me privilegiariam os deuses (se é que deuses existem) me colocando aqui? Quero dizer: neste planeta? Por que...

Não. Não vou estragar este momento com perguntas vãs e pretensas divagações metafísicas. Não sou filósofa e sei que, por este caminho, dentro em breve entrarei no campo de absurdos e inconsistentes sofismas. Não. Apenas me permitirei ser.
Sou. Sou eu e sou tudo. O pássaro, os pinheiros, os pombos, os pombais. Sou a árvore e sou a grama, sou a brisa e sou o sol. Soul.

Sem perguntas? Ah, quem me dera! (Sei que o gavião que acabou de riscar o azul não pergunta nada – e que nada pergunta a folha que cai, a flor sem nome, a cigarra estridente desatinando sua cantoria). Não farei perguntas, mas impossível conter o irrefreável desejo de sonhar – sonhar que a humanidade, tal qual a natureza, pudesse também ser assim: cálida, lírica, aconchegante.

Que os olhos só se abrissem para o belo e o harmonioso, que os narizes não se metessem onde não deviam. Que os lábios fossem mais brandos, as palavras mais compreensivas; que as mãos acariciassem mais e batessem menos; e os pés apenas caminhassem, sem precisão de se atropelarem tanto; que os ouvidos se fechassem para intrigas inúteis e se abrissem para eterna melodia cósmica. Que a palavra “irmão” significasse muito mais que o acaso de duas ou mais pessoas terem nascido da mesma mãe. Que as crianças – mesmo depois dos cinco anos de idade – continuassem maravilhosamente fascinadas e fascinantes, e não aprendessem tão depressa a astúcia, a mentira, a dissimulação. Que quando um vizinho batesse à porta de outro vizinho...

Nesta tépida manhã de inverno, a grama, o lago, a sombra. A temperatura é perfeita, a brisa leve, o mundo aconchegante...


Maura Maciel

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