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"Simplesmente Martha" e outros sabores - Filmes sobre comer

A relação alimento/afeto é freqüentemente explorada no cinema, variando a ênfase dada ao segundo elemento: comida/amor, comida/fraternidade, comida/erotismo; comida/arte, comida/espiritualidade. Comida/alegria de viver.

Por outro lado, a inapetência se liga à carência afetiva, à depressão e à tristeza.
No âmbito da sexualidade e do erotismo, sendo uma arte visual por excelência, dispõe o cinema de infinitas imagens para explorar a dupla acepção do verbo "comer" que, em quase todas as línguas do mundo, é utilizado tanto no sentido de alimentar-se como referindo-se ao ato sexual.

Dentre os muitos filmes que exploram essas questões, podemos lembrar A festa de Babette, Chocolate, Como água para chocolate.

A mais recente película do gênero, Simplesmente Martha, produção alemã dirigida por Sandra Nettelbeck, tenta misturar os vários ingredientes, embora alguns não convençam plenamente.
A relação inapetência/tristeza é representada por Lina, a garota que perdeu a mãe e não encontra na tia a afetividade que deseja. A menina é a imagem da desvitalização causada pela tristeza: sem vontade de viver, sem vontade de comer.

O erotismo de comer fica por conta do cozinheiro italiano - mas a ligação se faz menos com o envolvimento erótico/amoroso e mais com a afetividade: o momento em que Lina entrega-se vorazmente ao prato de macarrão que ele, de propósito, deixara ao lado dela.

A ênfase do filme, no entanto, fica para a questão comida/arte. Martha, mulher solitária e fechada, é uma artista na cozinha e, como todos os grandes artistas, não faz concessões na criação de sua obra. Não é o cliente, e sim ela quem determina se a carne está bem ou mal passada ou se o molho atingiu o tempero exato.

Artista temperamental (um dos clichês do filme), cria sérios problemas para a dona do restaurante que acaba apelando:

_ A cozinha é minha!

_ Não. É dela. Sem Martha sua cozinha seria apenas um amontoado de metais
- defende o recém-chegado cozinheiro italiano, também ele excelente chef, que ali se encontra pelo simples prazer de conviver com Martha, de cuja arte é incondicional admirador.

Outro desdobramento da história fica por conta do tema já batido da tia solteira que é obrigada a cuidar da sobrinha órfã, e a dificuldade de se estabelecer uma comunicação entre as duas.

Contrastando com a inapetência/tristeza de Lina está a fome/alegria de viver do cozinheiro italiano, solto e extrovertido, que consegue despertar a afetividade da menina e o amor de Martha, juntamente com o interesse pela vida e pelas pessoas.

O filme, que se passa em Hamburgo, termina na ensolarada Itália, e temos aí outra dicotomia: o "frio" afetivo do Norte da Alemanha e o sol da Europa mediterrânea. Somente em lugares quentes, com refeições servidas ao ar livre, o amor é possível? Ou a dicotomia frio/quente fica por conta das diferenças entre o temperamento anglo-saxão e o latino?

Em outro filme, embora a história se passe na gélida Noruega, temos uma demonstração de como os prazeres gustativos podem "degelar" as pessoas, transmudando o ascetismo em deleite e os ressentimentos em fraternidade. Trata-se de A festa de Babette, baseado no conto homônimo da escritora dinamarquesa Isak Dinesen, do livro A festa de Babette e outras anedotas do destino.
Dirigido por Gabriel Axel, o filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1988.

Nele, também, o enfoque é dado à culinária como arte, e à chef de cozinha como artista cônscia do refinamento de sua criação.

Assim afirma a própria Babette: "Sou uma grande artista. Uma grande artista nunca é pobre. Temos algo que as outras pessoas desconhecem.

Em Paris, de onde fora obrigada a fugir, Babette aprendera a cozinhar e transformara cada jantar no "Café Anglais" em verdadeiro caso de amor. "Um caso de amor de categoria nobre e romântica onde não se faz mais distinção entre o apetite e a saciedade do corpo e do espírito" - louvou o coronel Galliffet, um dos apreciadores dos pratos preparados por Babette, pois em Paris provara desses jantares.

Por acaso, o coronel fora convidado para o jantar que Babette oferecia à espartana comunidade local, e só ele se sentia livre para louvar cada prato e cada vinho que era servido, traduzindo em palavras o que para os outros era silêncio e disfarce.

A comida de Babette, um "autêntico jantar francês" que lhe custou 10.000 francos, não apenas inundou os cinco sentidos do corpo como também tocou as almas, arrebatando os comensais para um inefável desejo de bondade e gozo espiritual.

Nesse filme a palavra "comer" ultrapassa a conotação sexual para abranger o erotismo no seu significado mais amplo: todos os sentidos físicos colocando o corpo em comunhão com o mundo, integrando o corpo ao universo e inundando a alma de plena alegria de viver.

Numa comunidade religiosa em que a fraternidade periga e o amor fenece, Babette consegue através do deleite gustativo suscitar a idéia do que devem ser os deleites celestiais - e que vale a pena ser bom e generoso, para poder desfrutá-los.

Como água para chocolate conta a história de um amor proibido por uma anacrônica e austera tradição: Tita, a caçula de três irmãs, não poderá casar-se, pois cabe a ela cuidar da mãe até o fim de sua vida.
Pedro e Tita se apaixonam - mas são tolhidos pela Mama Elena, que propõe a ele casar-se com a outra irmã. Para poder ficar perto de sua amada, morando na mesma casa, Pedro concorda com esse casamento. O resultado é uma relação erótico/gustativa entre ele e Tita, relação silenciosa, e tanto mais mais erótica quanto mais contida, que se desenrola sutilmente diante de todos, sob o olhar reprovativo da mãe.

O segredo das receitas de Tita "fazer com muito amor" que, em outro contexto seria um chavão, é literalmente correto quando parte dela. Amor, desejo, paixão são ingredientes fundamentais nas comidas que prepara, sendo as refeições o momento em que, juntos, na frente de todos, usufruem, ela e Pedro, do intenso prazer de degustar algo que vai além do corpo e das emoções.

Toda a metáfora sexualidade/comida se desenrola durante o filme, acrescida do elemento "fogo":
Para preparar o mole, Tita sentiu em sua própria carne como o contato com o fogo altera os elementos, como um pedaço de massa se transforma em "tortilla", como um peito sem haver passado pelo fogo do amor é um peito inerte, uma bola de massa sem nenhuma utilidade.

Fogo esse que chispava do olhar de Pedro, quando a viu debruçada no chão, entremostrados os seios:

Em alguns instantes Pedro transformou os seios de Tita de castos a voluptuosos sem tocá-los.


Essa imagem continua quando Tita alimenta o bebê filho de Pedro, privado do leite de sua ama. Se havia algo a que Tita não resistia era ver alguém chorando de fome. Imediatamente sentia o impulso de aliviar essa necessidade. Esse desejo fez seu peito virgem poder alimentar seu sobrinho.

Momento de intensa e dupla volúpia para a jovem: a criança suga seu seio sob o olhar do pai, o homem que ela ama, e é como se fosse ele quem a estivesse tocando.

Somente o fogo poderia, afinal, consumir essa paixão, em fogo temperado e fundido.

Em Chocolate a festa da Páscoa preparada pelos amigos de Vianne (que com ela aprenderam fazer os deliciosos bombons) equivale à festa de Babette, mas aí o sentido da fraternidade e a aceitação do gozo gustativo já havia sido atingido antes pelos comensais, inclusive o mais rígido deles, o prefeito, que intransigentemente praticava e pregava a renúncia às tentações da carne. E foi tentando destruir a matéria dessa tentação - as iguarias expostas na vitrine da chocolateria - que ele cai em tentação. Um fragmento de chocolate cai em seus lábios e antes que perceba o que está fazendo ele o degusta. E entra em êxtase: começa a comer compulsivamente, voluptuosamente, deleitando-se ao extremo com o extremo prazer de saborear aquelas iguarias. Então chora. Não por ter-se rendido ao pecado e sim por pensar em todo o tempo perdido, em toda uma vida perdida na intransigência e no ascetismo, quando o mundo oferece tantas oportunidades de fruição e gozo.

Padre Henri, cujos sermões até então eram escritos quase na íntegra pelo prefeito, terá que valer-se de suas próprias palavras no sermão da missa e, finalmente, dizer o que realmente pensa.
Não foi certamente o sermão mais fervoroso do Padre Henri, nem o mais eloqüente, mas os fiéis sentiram uma sensação nova naquele dia, uma leveza de espírito, uma libertação da velha estabilidade.

As mudanças foram provocadas pela misteriosa Vianne, chegada de muito longe, abrindo no povoado uma loja de chocolates, cuja própria vitrine já dava água na boca. Mais que isso, Vianne, com misteriosas artes aprendidas de suas antepassadas, sabe o sabor exato capaz de tocar a pessoa, catalisando em cada uma seu próprio êxtase, na mais recôndita verdade de si mesma - como feiticeira ministrando poções afrodisíacas capazes de devolver a pessoa à plenitude do mais puro erotismo de viver.

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Simplesmente Martha (Bella Martha- Alemanha, 2001)
Direção: Sandra Nettelbeck
Com Martina Gedeck, Maxine Foerste, Sérgio Castellito

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A festa de Babette
Do livro de Isak Dinesen (Karen Blixen), também autora de Entre dois amores.
Direção de Gabriel Axel, filme vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1988.
Com Stephane Audran, Bibi Anderson, Birgitte Fedesrpiel, Povel Kern

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Como água para chocolate
Mais de 10 prêmios internacionais
Do romance de Laura Esquivel
Direção: Alfonso Arau
Roteiro: Laura Esquivel
Música: Leo Brower
Elenco: Marco Leonardi, Lumi Cavazos, Regina Torne, Claudette Maille, Mario Ivan Martinez

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Chocolate
5 indicações para o OSCAR 2001
Direção: Lasse Hallström
Elenco: Juliette Binoche, Judi Dench, Alfred Molina, Lena Olin, Johnny Depp

 

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