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Uma língua esquisita

As férias tão cuidadosamente planejadas tiveram que ser adiadas por uma semana o que, daquela vez, constituía um grave transtorno: pois tudo fora programado em função de Silvine, uma amiga francesa que dentro de três dias desembarcaria em São Paulo. E agora? Não podia sequer imaginar que desculpa dar a Silvine que fora de extrema gentileza e solicitude quando ela própria, Célia, estivera na França, levando-a a visitar todos os lugares desejados e muitos outros, encantadoras surpresas. Não sabia agora como dizer-lhe que durante uma semana teria que cancelar as viagens tão cuidadosamente preparadas, pois que era impossível deixar de atender ao caso imprevisto do Dr. Albarez, um antigo e importante cliente da firma... Não, não teria coragem! A amiga estava encantada com a idéia de saírem as duas, de carro, percorrendo o interior de Minas, as cidades barrocas de Minas, vilas, povoados – assim como a levara a conhecer cidadezinhas e povoados os mais encantadores da França. Célia literalmente arrancava os cabelos: pelo que se lembrava, jamais estivera em sua vida em meio a uma situação de tal maneira embaraçosa. Pedir ao Dr. Albarez – que, além de cliente fora sempre um amigo prestativo – que, por favor, procurasse outro advogado para aquele caso? Inconcebível. Frustrar as expectativas da amiga que pela primeira vez vinha ao Brasil numa viagem duramente conseguida? Era vexame demais. O que ela precisava mesmo seria, pelo prazo de uma semana, ser duas pessoas ao mesmo tempo e... – essa linha de raciocínio mostrava que ela já estava começando a pirar de verdade.
E Silvine estava chegando. Nem mesmo para mostrar-lhe um pouco de São Paulo Célia teria tempo, pois o caso que tinha em mãos lhe tomaria praticamente as vinte e quatro horas de cada dia daquela semana fatídica! Sentia-se doente de frustração e vergonha, quando assomou-lhe ao cérebro luminosa solução: mamãe!
Sua mãe, aos 78 anos de idade era a pessoa mais alegre e disponível que conhecia. Morava em São Lourenço, praticamente sozinha e, na casa ampla onde criara seis filhos, vivia agora normalmente apenas com a empregada. Normalmente era apenas um modo de dizer, pois, de fato, a casa mais parecia uma via pública: era um constante ir e vir de vizinhos, parentes, conhecidos, pedintes, ajudantes (d. Carmen tinha um jardim e uma horta), amigos, amigos dos amigos, filhos, netos, amigos dos filhos e netos e um ou outro avulso que não se sabia ao certo como acabara dando com aquele endereço e ali constituindo pouso. Todos eram recebidos da mesma maneira: com singeleza e calor.
Mamãe! Mas é claro! Como não havia pensado nisso antes? Sem hesitar sequer um instante, pegou o telefone e ligou para São Lourenço. Do outro lado da linha atendeu a voz alegre e calorosa de sempre. Célia, no entanto, não gastou muito tempo nas frases preliminares, foi logo ao assunto, esperando da mãe a afável disponibilidade de sempre mas, para seu espanto, a mãe mostrou-se relutante, colocou oposição:
_ Uma francesa?
_ É, mamãe! o que é que tem?
_ Não conheço nenhuma francesa.
_ Que ótimo. Vai ficar conhecendo uma agora.
Mas a idéia não parecia agradar em nada a d. Carmem, que continuava relutando:
_ Não sei não... Não sei se vou me sentir à vontade.
_ Claro que vai, eu juro. Você vai adorar, Silvine é um amor de pessoa.
Ainda indecisa, a mãe colocou em pauta o assunto que para ela era basicamente o cerne do problema:
_ E comida? O que é que vou dar pra ela comer? O que comem os franceses?
_ Ora, mamãe! O mesmo que a gente: carne, arroz, verduras, saladas...
_ E feijão?
Desta vez foi Célia que hesitou; mas apenas por um décimo de segundo:
_ Bom, feijão não precisa. Mas, se tiver, ela come também.
_ Claro que vai ter! – retrucou d. Carmem indignada. – Onde já se viu fazer uma comida sem feijão?
Célia sorriu com um ar malicioso e exultante: a mãe cedia. Vencera. Mas não, ainda não: restava uma questão crucial:
_ E a conversa? Esse povo fala tudo estropiado – como é que vou conversar com ela?
Não era uma questão crucial!
_ Ela fala Português, mamãe! – havia triunfo em sua voz.
_ Bom, sendo assim... Que dia ela vai chegar?
Depois da única coisa que Célia não havia previsto – aquele inesperado surto de xenofobia – foi um alívio passar aos detalhes práticos de acomodações e passeios.
Dois dias depois, foi receber sua amiga no aeroporto, num misto de alegria e apreensão: e se Silvine não gostasse da idéia? Ela podia achar que aquilo era uma falta de consideração, descompromisso – ou a clássica irresponsabilidade com que os europeus (de modo geral) tacham os brasileiros. Depois de se abraçarem com muita carinho e saudade, encarregaram-se da bagagem e, já no carro, durante o trajeto, falavam quase que atabalhoadamente, na ânsia de colocar em dia as novidades que ambas tinham para contar. Na verdade, era Silvine quem falava mais, apesar do cansaço da viagem. Célia estava preocupada, queria desincumbir-se o mais rapidamente possível da desagradável obrigação de informar sua amiga sobre sua impossibilidade de viajar naquela semana – sentia-se desconfortavelmente inquieta, imaginando que reação a outra manifestaria.
Foi com supremo alívio e gratidão que percebeu que Silvine, não só não se importava com a mudança de planos como também se mostrava encantada com a idéia de “ passar uma semana com uma senhora numa casa tipicamente brasileira ”. Nem tentou explicar que a expressão “tipicamente brasileira” não se adequava muito bem nem à sua mãe, nem à casa de sua mãe. Mas, pelo menos, até o quanto sabia, nenhuma outra visita era esperada para aquela semana, o que,no entanto, era coisa que não se podia garantir com absoluta certeza.
No dia seguinte, bem cedinho, Silvine foi devidamente escoltada até a Rodoviária, e mal o ônibus se pôs em movimento, Célia se dirigiu para o escritório já com o pensamento totalmente absorvido pelo plano de ação que aplicaria para solucionar o caso de Dr. Albarez. Com isso, três dias se passaram antes que ela se lembrasse de sua amiga, de sua mãe, de como estariam se saindo as duas naquele convívio improvisado. Foi com certo sentimento de culpa e receio que pegou o fone e ligou para a mãe. A voz que a atendeu era totalmente satisfeita e descontraída, cheia de notícias. As duas estavam passeando muito, iam ao parque, passeavam pelas ruas, passavam horas e horas conversando. Conversando sobre o quê? Sobre um monte de coisas, ora!
E a voz lhe chegou mais radiante do que nunca;
_ Mas, minha filha, eu nem te conto! No começo estranhei um pouco, mas agora... você acredita que entendo todo o francês que ela fala?
Aquela sim, era uma notícia realmente abstrusa: que Silvine estivesse falando em francês e que d. Carmem fosse capaz de compreendê-la. Célia quedou-se imóvel um instante, olhando pasmada para o fone, até que abriu-se num amplo sorriso irônico, atinando com a questão. Teve até pena de explicar:
_ Não, mamãe, não é francês. É em português que a Silvine está falando com a senhora.
_ Português? – a pergunta era incrédula.
_ É. Português de Portugal.
Uma longa pausa se instalou do outro lado do fio, antes que Célia pudesse ouvir a constatação estupefata:
_ Português de Portugal... Credo! Que língua mais esquisita!


Maura Maciel

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