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Eu morei em Abu-Ghraib

Era sempre divertido parar num ponto de táxi e dizer ao primeiro motorista da fila: "Abu-Ghraib. Sharika brasilían. How much?" E ele, fosse quem fosse, invariavelmente respondia: "Ten dinar". O que acontecia em seguida era como se estivéssemos querendo negociar um poço de petróleo. Todos os outros motoristas se juntavam em torno de nós e iniciava-se uma complicada discussão com aquele que nos cobrava "ten dinares" -  alguns contra, outros a favor, um ou outro até indo contra a ética e se propondo a nos levar por um preço mais razoável. O preço, a gente sabia: de 3 a 4 dinares durante o dia, e de 6 a 10 à noite, dependendo das circunstâncias (um dinar valia 3 dólares naquela época). Quando finalmente a gente conseguia falar, em meio àquela algaravia, a gente fechava a questão - e o motorista acabava por aceitar a contra-proposta de tão complexa negociação.

Na verdade, eles adoravam nos levar até Abu-Ghraib, à sharika brasilían. Conversávamos. Perguntavam muito sobre o Brasil. O Brasil, para eles (como de resto para quase o mundo todo) era Pelé e Carnaval. Também nos contavam coisas. Num precário inglês, nos falavam sobre sua vida, sua família, seu tempo de lazer, as festas. Muitas festas. Celebrações de casamento, música, dança, comida. E, nos feriados, sair com todos os seus para passear no Zoológico, num parque, num lugar divertido qualquer - assim muitas vezes os víamos. Exerciam a alegria da hospitalidade, de receber um visitante em sua casa,  mostrar-lhe a sua família e mostrá-la ao visitante. Gostavam de falar sobre essas coisas. E sobre a esposa que exigia jóias de ouro, a filha que estava na Universidade, o filho que conseguira seu primeiro emprego.

Íamos assim, conversando durante o caminho. Em Abu-Ghraib, com orgulho exibiam sua identificação ao guarda na guarita, e faziam questão de nos levar até à porta do hotel. Nos despedíamos : salam-aleko! - aleko salam! - era a resposta. O que corresponde a Vai com Deus , Fica com Deus também. Abu-Ghraib. As casas, os hotéis. Clube, escritórios, supermercado. Adultos e crianças, gente de várias nacionalidades: brasileiros, outros estrangeiros, árabes: iraquianos, egipcianos, marroquinos, libaneses, marroquinos... Diversidade suficiente para se promoverem campeonatos de futebol que duravam meses e constituíam a grande diversão da noite. Aconteciam os mais divertidos incidentes nesses campeonatos, inclusive, de repente,  todo um time de argelinos se retirando do campo, por não concordarem com a decisão do árbitro. E o outro time correndo atrás, implorando que voltassem, tinham que acabar o jogo, o que é isso, companheiro? Voltavam. Para alívio de todos, inclusive nosso, os torcedores.

Continuava o jogo, continuava a vida. Nos acostumamos depressa a esse convívio: aos desentendimentos passageiros, à hospitalidade, à alegria daquele povo.

Era assim em Abu-Ghraib.

 

Maura Maciel

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