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Estrela

Sentados no balancinho do terraço, olhamos o céu estrelado. O menino se admira. Morando em cidade grande e tendo que dormir cedo, quase nunca pode ficar assim, contemplando estrelas: qual a maior, a mais brilhante, as pequenininhas, o Cruzeiro do Sul.
_ Elas não caem por quê? – me pergunta.
Digo-lhe que giram; tento explicar, numa linguagem para os seus três anos, o percurso que estrelas e planetas fazem em torno do Sol; tento eu mesma entender esses tantos movimentos de rotação e translação, essas misteriosas leis plenas de gravidade. Ele escuta fascinado, sem compreensão inteira de um milagre tão grande, um universo tão comportado.
_ Até a Terra? Ela também está girando?
_ Está.
_ E a gente com ela?
_ Estamos.
_ Igual o quê?
_ Bom.... uma roda-gigante, por exemplo.
_ Mas eu não tô sentindo nada.
_ É... a gente nem percebe.
Miro seus olhos claros, iluminados de espanto diante de algo tão maior que tudo que a gente não consegue compreender (eu , pelo menos, não consigo).
Mostro-lhe uma estrelinha e digo:
_ Sabe aquela estrela? Aquela, lá, bem pequenininha.
_ Sei. Já vi. O que é que tem?
_ Talvez ela já tenha morrido há milhões de anos.
_ Isso não pode! A gente está vendo ela.
_ É. Mas quando uma estrela morre, sua luz pode chegar até a Terra muito e muito tempo depois.
Pergunto a mim mesma se estou passando alguma beleza para o coração do menino ou se vou acabar pirando a sua cabeça. Só me esqueço de que sua imaginação vai mais longe do que mil anos luz – ele está na idade de acreditar que qualquer maravilhamento é possível. Ou de maravilhar-se com aquilo em que nós outros já nem prestamos atenção.
Ele está olhando o céu, pensando , pensando... Conheço seu olhar quando, “viaja” dessa maneira. Provavelmente numa nave espacial, muito longe deste terraço e de minhas explicações pretensamente científicas. Talvez esteja vendo outras galáxias com suas mágicas constelações. Mas seu olhar vai retornando, fixa-se outra vez na estrelinha que eu disse que talvez já tenha morrido. Em tom absorto, murmura:
_ Isso é muito feliz.
Medito gravemente em torno dessa observação. Ele suspira, acrescenta quase que para si mesmo:
_ Eu queria ser estrela.
Não preciso perguntar-lhe por que, nos entendemos assim, quase sem palavras. Repenso, sonho. Ele é tão especial, que talvez consiga o que outras pessoas especiais através dos séculos conseguiram: ser estrela, continuar iluminando o mundo e a humanidade muito além dos limites da morte e do esquecimento.

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Maura Maciel


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