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Crônicas

Era uma vez?

Sento-me frente ao computador para escrever uma crônica que amanheceu prontinha na minha cabeça, começo com o título ERA. .. - quando toca o telefone. Automaticamente atendo - não é ninguém, ou melhor, é um fulano de um Banco me oferecendo excepcional plano de seguro de vida que segundo ele...
Escuto olhando pela janela, tem um passarinho estridulando na árvore da Rua Mar de Espanha, que faz esquina com meu prédio.
_ É um plano imperdível...
_ O quê?

Ah, é o moço do seguro de vida: o pobre falou um monte de coisa que não ouvi, dei uma desculpa, desliguei o telefone, voltei para o computador, mas... cadê ela? Cadê a crônica? Sumiu! Ó, my God! - sumiu totalmente, não tenho a mínima idéia da idéia que estava em minha mente, para onde foi, ninguém sabe, ninguém viu. Olho desolada o começo do título: ERA ... Era o quê? O que é que podia ser, ter sido e agora não é mais?
Sou uma frustrada cronista à procura de uma crônica que se perdeu nos meandros labirínticos de minha mente entulhada de coisas inúteis.
Era uma vez uma baratinha... Varrendo a casa achou um vintém, comprou uma fita, amarrou no cabelo e foi pra janela...
Não pode ser. Tenho que ficar calma. Serenai verdes mares e alisai docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro, manso, resvale à flor das águas...
Talvez sobre uma criança... Ri, criança, a vida é curta, o sonho dura um instante, depois, o cipreste esguio mostra a cova ao viandante.
Le lion est le roi des animaux, a gente traduzia por "O leão, de urrar, desanimou " - isso desanimava qualquer professor, e também quando interpretei como A rã cuspiu no prato do boi a frase latina Rana cospexit in prato bovem e houve na sala uma gargalhada geral, mas não me importei, A bon chat, bon rat, ninguém sabia nada mesmo, a não ser o Abel, que era sempre o melhor aluno da sala - não tínhamos muita admiração por "melhores alunos"; eu, por exemplo, era ótima em Português, tirava quase sempre nota máxima - mas esse pecado me era perdoado porque a Matemática não me entrava na cabeça nem por milagre. Isso era um acordo tácito entre os colegas: a gente podia ser bom em uma ou duas matérias, mas em muitas já era motivo de certo desprezo e, em todas! - totalmente execrado o pobre gênio e condenado à segregação total.
Dura lex sed lex , aforismo que meu irmão parodiava: Dura lex sed latex.

Eu ia escrever que Era... O passarinho continua histérico lá fora, o que será que deu nele? Armas num galho de árvore o alçapão, e em breve, uma avezinha descuidada, batendo as asas, cai na escravidão.
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba, minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá... Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã sabedoria, Santa Maria, Pinta e Niña, Cabral descobriu o Brasil. Mas era impossível descobrir para que servia o til em cima da letra N, Niña; até a professora pronunciava Nina.
Ouve os versos que te dou. Eu os fiz
hoje, que sinto o coração contente;
enquanto o teu amor for meu somente
eu farei versos e serei feliz.
No entanto,
És para mim o fruto proibido / não pousarei os lábios nesse fruto / mas morrerei sem nunca ter vivido. (Papai queria que eu arrancasse essa folha do caderno, achou os versos muito escandalosos e muita audácia de quem os copiara para mim). Quando eu te fujo e me desvio cauto... / Bem vês que me traí no fatal segredo / És bela, eu moço; tens amor, eu - medo.
E foi assim que
o primeiro amor passou
o segundo amor passouo
terceiro amor passou
E a vida continuou - pra nós dois.
Caminhando...

Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz. Que eu seja amada, compreendida, perdoada, alegrada, consolada, reconfortada.
Mas, se isso não for possível - que eu seja verdadeira e serena, e viva a minha vida em paz e com dignidade.
Pués toda la vida es sueño,/ y los sueños / sueños son. Les sanglots longs, des viollons de l'automne / blessent mon coeur / d'une langueur / monotonne.

"A ortografia do francês é facílima" - dizia aquele meu irmão: "basta dobrar todas as letras, e sempre colocar no final uma letra que não se pronuncia." Mas, para não desmentir a regra... como havia exceções!

Olfativo, óptico, motor ocular comum, patético, trigêmeo, motor ocular externo, facial, auditivo, glossofaríngeo... Isso é uma coisa que aprendi no colégio, acho que são nomes de nervos, tinha uma frase mnemônica, com a primeira letra de cada um, acho que era assim - Olha O Malvado Para Tanto Mal Fazer À Gente Precisa ... Qual seria o nervo de Precisa? Esqueci. "Para que saber esses nomes?" - eu me rebelava. "O saber não ocupa lugar" - era a máxima com que meu pai justificava o tanto de cultura inútil que a gente tinha que saber de cor.

Mas ele dizia coisas mais belas, tipo: O nascer e o morrer nivela os homens, mas a vida os separa numa hierarquia de valores, numa escala cromática de dignidades. Eu achava, e ainda acho, essa frase linda de doer, ele disse que foi enunciada num palanque por um candidato a prefeito - imaginem! um tempo em que candidatos a prefeito diziam esse tipo de coisa!!! E um pai que decorava esse tipo de coisa para ensinar pra gente. Ele não ia a comício nenhum, lia depois no "Patriota" - desfazia minha mãe.

Eu gostava de música e abominava a Matemática; meu primo, que amava a Matemática e a Música dizia, para meu espanto, que as duas eram a mesma coisa, e citava Pitágoras: Os números são o princípio e a fonte de todas as coisas. Todo o universo são números e todo o universo é música...

Bom, a gente habitava uma relativa democracia, hospedava idéias as mais estrambóticas, eu não era obrigada a concordar que " La vie en rose" fosse igual à soma do quadrado dos catetos da hipotenusa...

Céus! Uma crônica! Necessito de uma crônica. E só me vêm essas idéias anacrônicas. Tenho que parar neste mesmo momento de escrever estas coisas malucas pois ... q uando Ismália enlouqueceu / pôs-se na torre a sonhar / viu uma lua no céu / viu outra lua no mar .
ERA. .. Já era.

Quem foi que disse que O saber não ocupa lugar? Não sabia o que fazer com o Sena, o Tigre e o Eufrates, o Tibre, o Nilo... Tive uma professora alemã, a qual dizia que, quando jovem, estudava sentada às margens do Danúbio. Levei o maior susto. Pensava que Danúbio fosse só o nome de uma valsa, não podia crer que alguém pudesse realmente ter visto ele !

Só mais tarde, depois do Sena, do Tibre, do Tigre e do Eufrates, um dia em que parei - paramos - a contemplar emocionados o rio Jordão, descobri que todas as coisas são passíveis de acontecer.

Todas. Menos conseguir me lembrar da crônica que estava prontinha em minha cabeça antes que o telefone tocasse.

Maura Maciel
 

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