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Camomila e Albinoni

Não ter incumbência nenhuma. Apenas tomar um chá de camomila, bem doce, um dulcíssimo chá de camomila, enquanto ouço música. Mas vim parar frente à máquina de escrever* porque essa é a minha doença - ou a minha saúde, não sei. O telefone tocou quantas vezes quis, não atendi, assim me vingo. Estou sozinha em casa, no apartamento que cheira a cera e sabão - a faxineira veio hoje, gosto muito: quando ela vai embora.

O telefone tocou, não atendi. Me vingo, não particularmente de alguém, nem sei quem me chamava - mas tive um dia exaustivo, o trânsito terrível, tomei um táxi, o motorista de mau humor; comprei jornal, nem uma notícia que prestasse: assaltos, assassinatos, e uma greve longa e desgastante que vai terminar em nada.

Por isso não atenderei ao telefone: não quero ser invadida, não quero ser consolada ou que me estendam uma ponte. Chá de camomila e pronto. O Adágio de Albinoni, baixinho, baixinho... e minha máquina de escrever. Sem nada de importante para pensar ou elaborar. Porque fiquei meses e meses em cima de gramatiquices, espremi meu cérebro em busca de questões adequadas (as pessoas pensam que o mais difícil é dar respostas - de que adianta isso, se a pergunta não está correta?), vasculhei gramáticas para concordar com certas concordâncias, coloquei e retirei as mesmas vírgula, fiquei exaurida .

Quero escrever besteiras ou o que der e vier, sem necessidade de aceitar críticas, colocando ponto e vírgulas onde bem me aprouver.

Samambaias crescem desordenadas na minha sala, deixo crescer. Mas sou um bicho como outro qualquer: necessito de um pouco de sossego, do aconchego de minha toca.

De repente o mundo fica ruim e chato, as pessoas agressivas, mal-humoradas: então venho pra casa, me entoco, visto uma camiseta desbotada, tiro o batom, lavo a cara, me sinto livre - enquanto o resto do mundo continua pelejando pra consertar ou destruir alguma coisa.

Acredito piamente em carma e fico pensando no peso do meu. E tem aquela hora em que a gente pergunta: Pai, por que me abandonaste? Deus nunca responde. Também não creio que a pergunta mereça resposta. Tudo é tão discutível; algumas vezes tenho preguiça das pessoas e, muitas vezes, preguiça de mim mesma - não tenho outra opção a não ser me carregar pelo mundo afora. E sou complicadíssima, que o Senhor tenha compaixão de mim.

Estou lendo um livro de um autor que todo o mundo está adorando e eu achando pura babaquice - será que é de inveja? O autor declara que, para ele, escrever é só escrever tudo o que lhe vem à cabeça. Bom... desse jeito, até eu posso. Todo o mundo pode: porque sempre tem alguma coisa "vindo" à cabeça de alguém, alguma idéia; coisa mais sem descanso é o pensar da gente - até o sonho é um jeito de continuar pensando, parece. Tudo pra mim é assim: parece . Porque o que mais tenho é dúvida, careço de qualquer certeza.

Bom. O adágio. O sol da tarde se reflete no vidro de uma janela do prédio em frente, e de lá reflete outra vez, entrando em meu apartamento, justo em cima do pôster de O Homem de la Mancha, que Carmencita me trouxe do Rio. Fica, assim, uma luz diferente no rosto de Paulo Autran, mais iluminado. Não é um milagre lindo demais?

Amanhã amanhece e a vida continua: saio, vou pra luta - magérrima, anônima, com a invisível bandeira desfraldada. Uma guerreira de perdidas causas que se perde entre inúmeros outros anônimos guerreiros nesta cidade de fumaça, sonhos e sobre(as)saltos.

* Nota: "Máquina de escrever" - o termo se aplica a uma máquina que servia exatamente para isso: escrever. Bastante utilizada há 20 anos. A minha era uma Underwood italiana, muito moderna.

Maura Maciel

 

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