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Ainda existem amoreiras

Já não se fazem pais como antigamente, ou melhor, pais como antigamente agora são desnecessários pois, o que antes precisavam fazer, hoje a eletrônica faz por eles. O filho adolescente demora a chegar em casa? Liga pro celular dele.
Já tô indo, mãe, a mãe do Tiago vai me levar. Não, não preocupa, ela não importa, está acostumada.  

O colégio não precisa se dar ao trabalho de avisar aos pais que seu filho tem faltado às aulas, ou que suas notas andam baixas. Coisa mais antiga! Hoje, basta acessar o site do colégio na Internet – lá estão, com todos os pingos e letras, as faltas das crianças, os pontos que obtiveram naquela pesquisa (que, por sinal, foi copiada quase na íntegra de uma página da Internet).

Aprecio essas facilidades (não enfrentar filas nos bancos, por exemplo, é bom demais), e acho o celular uma invenção e tanto! Mas... obrigada, ó Deus, porque não havia celular nem Internet quando eu era criança. Nem consigo imaginar o pesadelo que teria sido minha vida de menina se eu fosse obrigada a andar com um telefone no bolso, e meus pais controlassem minha vida escolar diariamente através de um computador.

Matar aula era um jogo ao mesmo tempo criativo e arriscado, que desenvolvia nossa inteligência e coragem – mais do que aprender a demonstrar meia dúzia de teoremas no quadro negro, diante do olhar crítico do professor. Havia um diretor bravíssimo e um... – era “gerente” o nome que lhe davam: um fiscal de alunos, cuja função era nos manter dentro da sala de aula e nos vigiar quando saíamos. Saíamos muito! O pobre do gerente, coitado, era uma fera, morríamos de medo dele e de suas punições (resmas e mais resmas de cópias) – ele era bravo, mas não era onipresente. E o colégio tinha três andares, e 3 centenas de adolescentes impossíveis, doidos para transgredir as normas.

Matar aula! Em bando de seis, ou sete, ou mais. Em grupos sempre separados – de meninos e meninas – não nos dávamos muito bem ainda, os sexos opostos. (Menino era sempre aborrecido demais!). Quando acabava uma aula, alguém espionava, sorrateiramente, por onde o guarda andava. Depois, a aventura consistia numa corrida através do corredor, um por um, da sala até a porta que dava para o pátio. Vencida essa etapa, a gente parava um pouco lá embaixo, escondido atrás de pilastras, esperando para ver se havia algum inimigo à vista.

Começando a aula seguinte, tudo se acalmava. A próxima etapa consistia em atravessar a quadra, todo um terreno aberto, resvalar numa ladeira e ficar bem quietinho lá embaixo, já semi-ocultos pelo capim e correndo o risco de ser picado por alguma cobra. Se nada aconteceu até aí é que fomos bastante espertos ou tivemos alguma sorte. Agora, um longo fosso separa do campo o terreno do colégio. É largo, é fundo, é perigoso; é, segundo a lenda, cheio de bichos venenosos e repulsivos. Ao longo dele, dos dois lados, muitas árvores. Com cipós! Cipós longos e resistentes. Atravessar de um lado para o outro? Coisa mais banal para quem está acostumado a ver no cinema os filmes de Tarzan. E esse salto, esse balanço, é a primeira parte realmente prazerosa da aventura. Depois... é ganhar o campo, os pastos, as ramas, as moitas de frutas maduras. Chegar até o jequitibá, a árvore maior, que em sua sombra e seus galhos nos acolhe e protege e ouve todas as nossas confidências e segredos.

Depois, percorrer o caminho de volta, de novo enfrentar os terríveis perigos! Se no colégio não haviam notado nossa ausência ( alguns professores eram bem camaradas, se limitavam a colocar um F no caderno de chamada); não éramos punidos e nossos pais não tomariam conhecimento do crime. A não ser ao final do semestre, quando lhes chegava a terrível caderneta para que assinassem. Vinte e duas faltas no semestre? Não posso acreditar! Mas essa menina sai de casa todos os dias e vai para o colégio. E me olhando direto nos olhos: Como é que a senhora me explica isso?

Bom, eu quase não tinha tempo de explicar porque, se na minha caderneta havia 22, na de meu irmão constavam 56 faltas! O que atenuava a gravidade do meu crime e desviava de mim a indignação de meu pai. Eram tempos duros aqueles, pois, com faltas ou sem elas, ao final do ano tínhamos que dar conta da Matemática e da Geometria, das Ciências e do Francês. E tudo isso – compadecem-se de nós os jovens de hoje – sem ter celular, computador, Internet...

Nem televisão? – você pergunta – Vocês eram museu demais!!! Éramos. Somos agora fósseis dinossáuricos, alguns nascidos nos fins da primeira metade do século XX – que horror! Pobres de nós. Uma vida sem nenhum encanto, sem nenhum desses miraculosos aparelhos eletrônicos, sem os quais é inimaginável a existência de hoje. É humilhante ter que reconhecer: não tínhamos nada disso. A gente só tinha o céu aberto sobre nossas cabeças, noites estreladas (havia estrelas naquele tempo!) para se ficar na praça, olhar para o azul e sonhar. Ir ao cinema aos domingos, ver seriado, passear na pracinha, chupar picolé espiando a cidade. Tínhamos também os campos, árvores pra subir, um rio pra mergulhar. Córrego cheio de peixinhos e pedras no fundo. Andar descalços no capim, arranhar as pernas e, de repente, a surpresa! – uma moita de guabiroba, um arbusto de amoreira. Vergando de frutos: que alegria quando estavam bem amarelas as gabirovas, as amoras quase negras.

Ainda existem cidades de interior, ainda existe o campo, córregos, rios com pedras no fundo. No entanto, as crianças que têm o privilégio de viver numa dessas idílicas cidades – a maioria dessas crianças passa grande parte de seu tempo vendo televisão. Várias delas ficam horas e horas frente ao computador, jogando infindáveis jogos eletrônicos, e outras, coitadas – até transportam celular. O mundo mudou muito, é verdade, mas, mesmo que ninguém se dê conta... ainda existem amoreiras.

Maura Maciel

 

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