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O Gato de Botas

Quando criança, os brinquedos de Mariana eram aqueles que ela mesma fazia, com pedaços de papelão, retalhos de pano, recortes de alguma revista velha; carretéis vazios, caixas de fósforo, latas, cotos de velas, tocos de lápis; lascas de taquara, pau, pedra, tijolo; folhas, frutinhas, sementes, conchas de caracóis - coisas que ia garimpando pelo quintal de sua casa. Tinha também às vezes uma ou outra boneca de pano ou de papelão, mas desbotavam logo, viravam bruxas, ela deixava de lado. E a vida era assim: a casa, o quintal, a rua, a calçada. A escola.
Na escola aconteciam coisas, de algumas gostava, de outras não - mas, desde muito pequena, sempre escutou: Criança não tem que querer. Assim, ela vivia não querendo, ou, pelo menos, fazia bastante esforço. O que a resgatava na escola - o que a fascinava, deslumbrava, seduzia! era o momento solene em que a professora abria um livro e lia uma história. Esse mundo de que antes ela não sabia - fadas que transmutavam abóboras em carruagens, princesas que durante cem anos dormiam, sapos que viravam príncipes, castelos de mil coisas inacontecidas - esse passou a ser o seu mundo, mais real que o dia-a-dia, nele a maior parte do tempo habitava.
Em sua classe apareceu uma garota, Maria Estela se chamava; o pai, funcionário público, transferido para Soledade. Mariana descobriu no mesmo dia: na sua rua, um pouco acima, do outro lado - era ali que Maria Estela morava. Ficaram amigas, iam e voltavam juntas da escola e, nas tardes, quando todas as crianças brincavam pelas calçadas, as duas também brincavam. Ou ficavam apenas sentadas, na beira do passeio, contando coisas.
A primeira vez que Mariana entrou na casa da amiga - que pasmo! Achou que Estela fosse muito, muito rica, pois possuía tesouros, tantos e tão preciosos, que nem em seu mundo de castelos imaginários nunca imaginara. Um quarto só de brinquedos: inúmeros, variados, lindos, raros - dentro de uma arca, encarreirados em cima dos móveis, jogados no tapete, sentados em cadeiras. Uma boneca impossível! de olhos azuis, que piscavam; e seus cabelos eram de verdade, a gente podia pentear, e chorava quando inclinada para trás. Maria Estela contou: Papai trouxe pra mim, quando foi a Nova Iorque.
Nova Iorque era uma cidade que ficava nos Estados Unidos - mas, se ficasse na Lua ou no País das Maravilhas, para Mariana daria no mesmo. O que sentia inconcebível é que alguém possuísse tanto, uma menina de sua idade, uma menina que ia à mesma escola e que tinha uma letra até mais feia do que a sua.
E ainda mais - esse sim, esse foi o maior de todos os assombros: uma estante com milhares de livros (talvez uns vinte). Uma estante com aqueles mesmos livros de histórias que a professora às vezes levava para a sala de aula e não deixava ninguém tocar.
_ Posso pegar? - ela perguntou da maneira mais humilde que podia, sabendo que estava pedindo o impossível e que a outra ia rechaçar o seu proibidíssimo desejo.
_ Se quiser - foi a impassível resposta.
Ainda perplexa, subiu na cadeira, foi passando levemente os dedos pelas lombadas, entortando a cabeça para ler os títulos, estremecendo indecisa diante de uma escolha que poderia ser para sempre irrevogável. A outra, impaciente com a demora:
_ Pega um tanto de uma vez, põe aqui no chão.
Um tanto! No chão. Tudo naquela casa era possível!
Sentada no tapete, a pilha de livros. Folheando, com pressa, sofreguidão, mal acreditando que aquilo pudesse ser de verdade.
Dona Conceição havia chegado à porta, observou a menina, comoveu-se com o seu deslumbramento.
_ Dá um para sua amiga, minha filha - ela falou.
Maria Estela não gostava muito de dar suas coisas. A mãe sugeriu:
_ Dá este aqui, O Gato de Botas: você ganhou outro novo, os dois são iguais.
E foi assim que Mariana tomou posse de seu primeiro livro de histórias.
Não quis brincar mais não, queria ir para casa, desfrutar sozinha do seu tesouro. A partir daí, lia e treslia a história, rolava de rir com a esperteza do Gato, decorava suas falas, ficava muito contente cada vez que ele enganava o ogro; espantou-se tanto quando o gato o convenceu a transformar-se em rato e assim o comeu, ficando com o seu castelo para oferecer ao amo. Guardava o livro muito bem guardado na sua pasta da escola, única coisa que sua irmã pequena estava proibida de mexer, fora de seu alcance, na prateleira do armário.
Chovia, foi um mês de muita chuva. Ela, que antes tinha horror, agora até gostava. Ir para seu quarto, encolher-se num canto e ficar lendo. Se Lelena entrava, Mariana logo escondia o livro - a irmã era pequena e muito destruidora de coisas. A menina chorava, queria ler também, olhar as figuras: Só quando você crescer! - e não deixava, mesmo que a outra fizesse a maior birra do mundo.
_ O que você está fazendo com sua irmã? - a mãe se zangava.
_ Nada não, ela quer meu livro.
Pensando que era livro de estudo, a mãe mandava que Lelena ficasse sossegada.
Ainda chovia. E Lelena estava doente - adoecia à toa, por isso todos faziam a sua vontade.
_ Cuida dessa menina - a mãe mandou. Tenho mais o que fazer.
Mariana ficou cuidando. Dava tudo que a pequena queria, tudo que não quebrava: pente, boneca, baralho, escova, lápis, borracha...
_ Quéio o seu livo.
_ Meu livro não pode. É de estudar.
_ Me dááááaaaa.....
E desandou num berreiro que atravessou três salas, chegou à cozinha, importunou a mãe que batia um bolo. A mãe foi ver:
_ O que está acontecendo com ela?
_ É birra, essa menina chora à toa.
_ Lelena é assim mesmo - a mãe falou - Mariana tinha que entender.
E por que não entenderia? Conhecia adultos que diziam "eu sou assim", ostentando seus defeitos como se fossem virtudes, grandes vantagens.
_ Mandei cuidar dela, não fazer chorar.
_ Mãe, ela quer o meu...
_ Quéio o livo!...
A mãe tinha mais pressa do que paciência:
_ Dá o livro para ela e acaba logo que com esse berreiro.
_ Mãe...
Palavra de mãe... foi-se embora, nem olhou para trás.
Mariana se levantou, foi lá no quarto, pegou a pasta, tirou o livro, levou, entregou para a irmã. O choro parou.
Enquanto a menina, em gestos bruscos e desastrados, amarrotava, rasgava as folhas, despregava a capa, Mariana olhava para fora, além da janela, além da chuva, do céu escuro. O mundo de repente ficou muito quieto a seu redor. Mesmo com a irmã arrastando uma cadeira até a janela, subindo, debruçando-se para fora. Com o livro na mão. E foi rasgando, folha por folha, pedaço por pedaço, e atirando lá fora, no aguaceiro, na rua barrenta, na lamaceira que escorria. E ria!
Mariana olhava. As folhas se desmanchando na enxurrada, resvalando, diluindo, naufragando nos bueiros.
Doía tanto, tanto, que seu mais fundo desejo era ser gato de botas, sumir no mundo; estar bem longe
daquele quarto, daquele fado, daquele fardo.

Maura Maciel

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