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Contos

Doralice

Iam os meninos à casa de Donana trocar uma quarta de fubá. Não era distância muita, coisa assim de meia légua. Depois de dobrar o morro, atravessavam o córrego e pegavam a vereda do mato - uma trilha de dar gosto, eles apreciavam demais essas tarefas de dar passeio.
_ Também quero ir! - para espanto de todos a menina inventou. - Deixa, mãe, deixa, deixa!
Nos seus três anos de vida, pela primeira vez cismava de querer alguma coisa. Ela não era de teima, mas nessa hora a vontade ficou demais: quero porque quero! Não era possível que ia fazer manha, uma menina tão conformada que sempre foi.
A mãe hesitou. Os irmãos, esses, fizeram corpo mole, cara de desagrado:
_ Você vai não, Doralice. É muito pequena, só serve pra estorvar.
Ela era, ela estorvava. Mas queria tanto!
_ Vai não! - danou Dalberto.
_ Nem pensar! - reforçou Donato.
Esse foi o erro dos meninos: pois a mãe era muito senhora de todos, não ia consentir que filho seu ficasse dando ordem.
_ Ela vai sim - afirmou. E vocês tratem de tomar conta: se preciso, levam de cavalinho no cangote. Não deixa ela para trás, não deixa cair, toma conta.
Fala de mãe... não tinham escapulida.
Lá foram eles, um com o picuá de milho contrabalançado no ombro, outro querendo levar a Doralice, mas ela emperrou:
_ Quero ir de a pé!
Da janela, a mãe ainda recomendava:
_ Tomem conta da menina, olhem lá! Não deixem acontecer nada de ruim com ela, vigia bem.
Diacho! Êta estorvo! Coisa pior na vida deles era ter nascido essa irmã, cruz credo - que maçada!
Lá iam os três pelo caminho - os meninos já estavam acostumados, mas Doralice era a primeira vez que ia e a aventura era muito repleta de surpresa. Um galho que fosse no meio do caminho, uma borboleta amarela, uma flor - pra tudo ela parava, ficava apreciando; os irmãos se aperreavam demais.
_ Anda, Doralice, não empaca, vem!
_ Que diacho, vou te carregar na cacunda - disse Donato.
_ Quero não! Vou andando, quero ir sozinha...
Os dois estranhavam ela assim tão cheia de opinião, rejeitando comando, não era do seu natural - o mais do tempo a menina era muito concordada. Doralice, por isso mesmo ia mais satisfeita: descobrindo o gosto de resguardar seu próprio agrado, fazer o que lhe dava vontade. Os irmãos cada vez mais aperreados, e lembrando a recomendação da mãe: Cuidem dela, não deixem que lhe aconteça nada.
O que poderia acontecer? Da fazenda deles até a casa de Donana era só um pulo e, de passantes, só conhecidos, povo de um ou outro lugar. Que ela ficasse para trás vendo borboleta, que desfrutasse - eles nem-te-ligo: combinavam uma pescaria para mais de tarde.
A menina estava nem sabia o quanto de contente, nessa primeira vez que saía assim, só ela mais os irmãos - coisa de gente grande, de menino grande que pode sair para os campos, armar arapuca, caçar rolinhas. Estava muito feliz com o acontecimento. Os irmãos, na frente, não davam confiança.
Dalberto outra vez quis carregá-la um pouco nos ombros, mas ela refugou. Queria viver todos os passos daquela aventura (aventurinha de nada, ela nem desconfiava: só ir na casa da Donana e trocar o fubá).
Os irmãos mais ligeiros, cada um com uma vara na mão, açoitando as moitas, só de fastio ou maldade. Falavam de coisas que ela não escutava, tão atenta a tudo quanto era moita, árvore, passarinho ou cupim.
Por ali podia aparecer alguma cobra ou touro bravo, mas dessas coisas ela não cuidava. Único medo da menina era do bicho-papão, esse que desde que ela se sabia Doralice os irmãos ameaçavam que um dia ia aparecer e levá-la para um lugar muito feio e de muita escuridão.
Nesse momento, não pensava nisso. Gostava muito quando o caminho fazia uma curva, e então ia descobrir o que estava do lado de lá. Pedras, uma árvore de flores amarelas - tudo eram surpresas.
Árvores. Agora muitas, o sendeiro mais sombrio; estava fresco, quase não batia o sol. Mesmo sem ver, escutava-se o corguinho correndo entre os bambuzais. Quis pedir que parassem um pouco, ela queria ver as águas - também já estava ficando cansada, agora já podia consentir que a levassem de cavalinho nas costas.
Mas cadê Donato? Cadê Dalberto? Antes bem que desconfiasse que tinham sumido, ouviu um ronco medonho abalando o escuro do arvoredo:
_ EU SOU O BICHO-PAPÃO... EU PEGO ESSA MENINA.
Fincou raízes no chão, nada de si não tremeu: foi só um espasmo - e um frio fundo congelando o mais fundo dela mesma.
Agora já faz tempo que baste, vamos voltar e buscar ela, tadinha - falou Donato, mais compadecido, depois do susto bobo que haviam pregado.
Foram.
Doralice de olhos esgazeados olhando coisa nenhuma, detida meio torta na trilha, uma baba gosmenta escorrendo da boca.
Dalberto pegou a irmã, sacudiu, abraçou, deu consolo - nada. Só os olhos um pouco vesgos e o riso bobo na boca babenta.
Nunca mais Doralice reconheceu ninguém nem pronunciou palavra. Cresceu assim, lesa da cabeça, bem escondida no fundo de seu miolo pra não sofrer outra vez.
Nesse estupor, ela fugiu do tempo, ficou assim, para sempre menina, sem lume de idéia, zanzando pela casa, boneca de trapo desengonçada.

(Maura Maciel)

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